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Silêncio que esbofeteia, que magoa, que fere, longe dos gritos de uma multidão em chamas, alvoraçada, ofegante de um deserto de alegrias, feita refém de uma dor infiltrada, cravada, desenhada na alma como tatuagem na pele, silêncio de lágrimas, silêncio de pânico, silêncio de crescimento também, de apalpação de cancros mentais, de vírus inexpugnáveis, mais e mais propagadas, mais e mais maléficas, metástases irrecuperáveis de idiotice.
Silêncio no ouvido, distância paradisíaca do mundo.
Ruídos, confusão, diálogo de palavras ditas e não pensadas, frases que se cruzam nos céus, invisíveis e audíveis, que se abraçam ou repelem, perdidas do que são, escravas de quem as usa, meio eterno de um fim prematuro.
No silêncio, duas almas fundem-se.
Um abraço que não passa, duas peles que se tocam, se sentem, se beijam, uma canção em cada olhar, melodia insonora, gotas moventes de suor, serpentes envenenadas de calor, movimentos, contorções, esgares interiores, e finalmente o prazer assassina o silêncio, o êxtase derrota a magia.
Olhar-te em silêncio, poema que me recitas.
Não há luz, não há barulho, não há movimento, somente os meus olhos nos teus, o teu mundo no meu colo, nestes braços que aprendi a amar porque só por eles, através deles, te afago, te toco, te acarinho, sobre um colchão incendiado, inferno de calor pisado pelo céu do amor.
O adeus que fica por dizer, silêncio definitivo.
Deitado, entre cadáveres com vida, um tubo enfiado pelo nariz, uma bata branca que me cobre, cheiro a químicos, odor de morte a saltitar na atmosfera, eis-me amarrado, tolhido, amordaçado pelo paradoxo da minha existência desde que existes em mim, pela ambivalência de desejar a paixão de te ter e a liberdade de morrer.
Vou sucumbir, partir sem uma palavra, sem um adeus, no mais sepulcral dos silêncios, asfixiado pela memória de outros momentos, de outras batalhas, sobretudo de outros silêncios, silêncios voláteis, que me encarceraram na despedida que agora tenho de fazer.
O negro do teu caixão, silêncio da minha esperança.
Rezas, palavras de circunstância sublinhadas a hipocrisia, já não estás, já não és, já não existes, já não vais dizer que tudo isto te enoja, que um funeral é a prova de que morrer é bom porque quem morre não voltará a assistir a uma cena destas, a um urra! aos mortos sob a forma do choro, a uma corrida entre familiares, amigos, colegas, simples conhecidos, pelo ceptro do mais choroso, do mais afectado pelo desaparecimento do corpo que repousa imóvel entre as catacumbas de um caixão – é o teu desta vez, negro, sólido, frio, o oposto do que tu foste enquanto vivo: haverá prova maior de que a morte é o antónimo perfeito da vida? Olhando os teus lábios adivinho-te a resposta que só não me dás porque sempre veneraste o silêncio e também porque estás morto: e não serão vida e dor sinónimos perfeitos? E lá continuarias o teu raciocínio, nesse corrupio que sempre te fez viver e que te atirou para o caixão onde acabaste por morrer: um sol a brilhar é a coisa mais assustadora do mundo, é o poder que sobre nós impera a mostrar-se na sua plenitude – imparável, indizível, incontrolável -, olhando-o só consigo pensar em ir, partir, desaparecer, não é justo que este colosso de luz prossiga a sua vida para além das minha, como se ali estivesse apesar de mim, de nós, das miniaturas que labutam e correm e choram e riem cá por baixo na sua vidinha insignificante, como se o mundo fosse somente não uma casa que compramos mas um quartinho alugado nas traseiras do universo, é o sol que me afasta de ti, é o sol que me faz ver que o que nos une é parte daquilo que nós somos, é humano, é findável, é frágil, mas é o silêncio que me aperta de medo e me entrega de bandeja a ti, sem mediadores, sem corpos, tu e eu.
O silêncio, tua voz.
Autor: pedro chagas freitas
Data: 24/01/04






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