Literatura

Diário de um Humano

A ficção é a melhor parte da realidade...

Construir mundos alternativos é recriar a génese de nós...

Junto ao ouvido, ouves a minha boca dar-te a letra e a música que sempre gostaste, embalada pela emoção, pelo sentimento, por aquilo que julgas real, a que te agarras sem pensar, esquecida de que no fundo isto não é mais que uma ficção, a nossa pequena ficção, em que vivemos e que nos faz viver, fruto da nossa imaginação, produtora talvez única dos momentos ínfimos e cada vez mais espaçados de felicidade da realidade que alguém compôs para nós habitarmos, uma diminuta barraca sem sofás para deitar, sem cama para dormir, despojada de tudo que é conforto, somente deveres, dores, sofreres, e eu e tu sabemos que quando nos conhecemos, naquela noite fria, gélida, mórbida até, naquele momento viramos a pauta da nossa existência ao contrário, compusemos a nossa canção, quente, tórrida, calorosa, uma ficção de abraços que calcou, que amassou, que pisou, sádica, a amargura da realidade que os realistas apelidam de pura, como se a pureza pudesse andar de braço dado com a dor.
Construir mundos alternativos é recriar a génese de nós.
As palavras que gaguejam a sair, os medos, olhos fugidios, o receio da rejeição, a vaidade, no fundo tudo o que somos em equação em segundos, no momento exacto em que me entrego a ti, em que me solto daquilo que quiseram que eu fosse e construo um novo eu, o teu eu com o meu, uma junção de ficções e não de realidades, sim, de ficções, este que te fala e acarinha não sou eu, esta que me embraça não és tu, antes alguém recalcado pelo amor, tolhido pelo que tem de ser e não pelo que é, uma peça solta de uma engenharia complexa chamada vida.
A realidade, doença do viver.
Subsiste, ténue e escondida, camuflada pelo tapete que juntos bordamos, a essência, a perfídia que se nos impregnou à nascença, aqui e ali trazida à tona, e caem discussões, gritos, berros, choros, frases, palavras sem censura ficcionista, reais e por isso cortantes, a ficção a sentir no tecto a pressão de uma eterna realidade, forte, imortal, mãe do que um dia fomos e de que fugimos, é dela o nosso sangue, o nosso corpo, a nossa força, enfim, a nossa vida, verdadeira, real, impossível de ser derrotada pelas ficções que nunca passarão disso mesmo, ficções, triste infelicidade de ser criação e não criador.
Vácuo da distância, renascimento da ficção.
Virar de costas, mágoa, a face que já não se vê, desce aos calabouços a realidade, dura, escondida em recanto de passado, sobe ao palco a estrela temporária do presente do pranto, do futuro utópico da ficção, o mau que passa a menos bom, o copo meio vazio de repente meio cheio, negro feito azul, nuvem dominada pelo sol, pela saudade que alastra pelas veias, que sobe ao cérebro e o impede de operar movimentos, acções, paraplégico da distância, do vazio de te ter cá dentro e não te ver cá fora, criatura viva de um mundo morto.
A ficção do nosso amor, incontornável realidade.
Apagar-te de mim, afastar-te, pontapear-te para sempre, recorrente desejo, amarrado à dor, aos choques, improfícuo esforço de querer que tudo não passe de uma irrealidade perfeita, de um conjugar de duas almas gémeas, ficção mãe, e tu sabes que não é possível, que és tu apesar de mim, que sou eu apesar de ti, que somos nós num mundo que não existe mas que é a única âncora a um globo de defeitos, a um manto semeador de fuga, corda da vida pendurada no pescoço da morte.
Quarto escuro, tudo e nada a unir-nos.
Sós, amarrados, lençóis suados e ressuados, músculos moídos, doridos, cabelos esparsos na almofada, almas estendidas, escuridão, luz que mostra a ficção de um paraíso imediato, partilha total de imagens que não vemos, distantes do corpo, fora da matéria, do palpável, virtual peça onde és heroína, e eu herói, ficção que repele a realidade, que nada tem a ver com ela e que contudo lhe pertence, órfão perdido de um pai de sangue.
A ficção é de longe a parte mais interessante da realidade.


Autor: pedro chagas freitas
Data: 28/01/04


COMENTÁRIOS