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Diário de um Humano
Tu...
Por mais voltas que dermos, por mais que o globo gire, por mais que o tempo corra e as imagens se sucedam, vais ser sempre tu...Tu, segredo que conservo no ouvido.
Esperança, falsidade da continuidade.
Medo, alavanca para a resignação.
Futuro, festa fúnebre a que não quero comparecer.
Hoje olhei-te, vestias de azul, saia pelo joelho.
E a pele, a pele das tuas coxas adivinhava-se, lisa, cândida, e as ternuras que um dia te ofereci e que tu aceitaste voltaram, naquela hora, mais sentidas que nunca, mais dilacerantes que nunca, e tu olhaste-me, nem sorriste nem falaste nem reagiste, corpo morto guiado pela alma que feri de morte no dia em que percebi que a minha vida era passado, e eu chorei, ao meu lado levava quem te substituiu, quem se deita nos lençóis e na cama que deixaste órfãs, cruel amor, e eu olhei-a e olhei-te e ela nem soube quem tu eras, não quis mentir, não quis contar-lhe a verdade, porque a verdade, a verdade é que ela és tu e isso ela não ia entender, não ia compreender que por mais voltas que dermos, por mais que o globo gire, por mais que o tempo corra e as imagens se sucedam, vais ser sempre tu, sempre, e depois de ficar só na penumbra conciliadora e docemente depressiva do quarto eu percebi que tinha chegado a hora de voltar para o aconchego do teu calor, para a concha dos teus braços finos, e mesmo sabendo que não me querias voltei à casa onde tantas vezes dormimos e vi-a vazia, chorei uma lágrima em cada objecto que eras tu, e todos os objectos eram tu, o copo na mesa-de-cabeceira que fazias questão em encher de sumo antes de adormecer, a almofada em pele que me ofereceste porque, dizias, os teus ombros não são algodão, o tapete no chão que muitas vezes usamos como o mais luxuoso cobertor depois de longas sessões de suor a dois, de danças de amor, e a secretária onde punhas o computador e escrevias, a cadeira rotativa em que te sentavas e rodavas, rindo com a vida que me davas e que eu te dava, e até o chão, sim, o chão, até ele já não é o mesmo, já não tem résteas do teu cheiro, marcas do teu corpo, pisadas do teu sentir, está riscado, imundo, porque desisti de tentar limpar o que não tem limpeza, nenhum esfregão vai apagar o que é eterno, e o guarda-vestidos, intacto desde que te foste, as roupas alinhadas por cores, das mais escuras para as mais claras, e notei que na secção azul faltava lá um conjunto, faltavas lá tu como eu te olhei dentro daquela cama final e rodeada de rezas e flores, até na morte quiseste ser diferente e não caíste de negro, foste para a morte como sempre quiseste andar na vida, de azul quando estavas feliz, de negro quando estavas triste, e tu agora estás feliz, de olhos fechados e sem reacção, porque no fundo sabes que esta foi apenas uma forma de acabar com a nossa separação em vida, como se a morte pudesse ser o mais talentoso dos cúpidos, e tu sabes que falta pouco para nos encontrarmos de novo, só o tempo de um sermão e de uma bala na cabeça.
Hoje olhei-te, de azul.
Hoje olhei-te e disse-te até já.
Autor: pedro chagas freitas
Data: 04/02/04





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