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Diário de um Humano
Felicidade, utopia do viver...
A felicidade não existe mas se existisse seria assim. Nos teus braços, dizendo-te que estou feliz quando estou triste, e ver-te feliz...A casa era antiga, coberta pela textura da pedra e pelo verde do musgo.
Helena senta-se na cama, olhando fixamente para o que a circunda, boca semi-aberta, olhos bem abertos a reflectirem a novidade do que observa. Ri efusivamente, sem razão aparente. Cláudio olha-a e manda-a calar com o desprezo dissimulado com que sempre a tratou. Ela obedece, fraca e submissa, não deixando dúvidas quanto à carência de força mental que a caracteriza.
É curiosa a discrepância de personalidades entre seres tão iguais como os humanos.
Helena volta a rir, enquanto recheia de vinho tinto o copo que lhe foi destinado. Cláudio corta-a com o olhar, mas agora nada lhe diz, prefere estender-se na cama ao lado de Andreia. Olhas de soslaio para o que vês. A tua irmãzinha está ali, corpo esticado ao longo dos cobertores, perto de um homem construído e acabado, que poderia ver nela - e via- algo mais do que a menina terna e carinhosa que é.
A dança é a dor imensa que se precipita dentro de mim.
Movo-me sem tino, bamboleando-me lentamente e espero que todos me vejam como um ser alegre, extrovertido e sem limites - a antítese do que sou.
O fumo dos cigarros assoma pelo quarto e o seu odor cobre finalmente o intenso cheiro a vinho que impedia Andreia de respirar livremente. Interrompo a dança, e a parede recebe as minhas costas, sentado no frio chão. As manchas de fumo esvoaçam livremente sobre mim, desenhando abstractas figuras.
Numa delas, vejo o rosto de Deus. Eu, agnóstico convicto, vejo um caquético velho, pêlos alvos sobre a enrugada face, olhos verdes e azuis e cinzentos. Parece-me que o vejo a discursar, mas fecho por segundos os olhos e quando os volto a abrir já não o vejo - apenas uma indecifrável nuvem de fumo.
Deus não existe mas se existisse seria assim. Uma nuvem de fumo caquética e que desaparece quando mais é necessária.
Pressentes o meu sofrimento e ancoras-te perto dele. Ricardo apaga a luz e começo a sentir a tua boca a tocar a minha. Sem o notar, já te sinto dentro de mim, a tua língua a tourear a minha, a descobrir os cantos mais recônditos da minha boca, esquinas escondidas que nem sabia que existiam. Ao lado, Cláudio e Helena falam sem senso. Ela em cima dele. Ele prostrado, recusando estar debaixo dela, recusando o amor que ela oferece em pedinchante acto.
Tocas no mais fundo de mim, beijas a dor, que julgava inatingivel, e choro sem que a luz apagada me denuncie. Na cama, outrora repleta, apenas Andreia e Ricardo, fazendo algo que não sei o que é.
A luz apagada não era camuflagem só minha.
Helena e Cláudio discutem ardentemente. Ele tenta explicar-lhe as razões que o levam a recusar possuí-la. Ela não entende ou não quer entender e humilha-se para tentar justificar a humilhação. Estão de novo na cama, a sua voz ficou mais distante. Continuo sem saber o que fazem Ricardo e Andreia.
Não pareces, agora, preocupada com o que poderá estar a acontecer com a tua irmã e continuámos abraçados ao chão nos braços do amor. Eu sei que estou a sofrer, que me dói muito, muito mesmo, lá por dentro, quando me perguntas se estou bem, se estou feliz, e eu respondo que sim de forma convincente.
Não estou bem.
A felicidade não existe mas se existisse seria assim. Nos teus braços, dizendo-te que estou feliz quando estou triste, e ver-te feliz.
Autor: pedro chagas freitas
Data: 05/02/04





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