Literatura

Diário de um Humano

Um som, submissão...

Sou a face negra de um rio enganador...

Um som, cântico de submissão na silhueta da minha dor.
A mulher, o amor, a vida, sombras difusas que me cegam de pranto. Caminho só, seguindo pelo horizonte uma linha imaginária, em paralelo ao rio que espelha uma imagem de mim quando sobre ele me debruço, e no entanto não é meu aquilo que vejo, não sou forte e saudável como a água me quer dar a entender, não sou alegre nem encorpado, sou a face negra de um rio enganador, um rio de deus que não me entrega nos olhos a face do diabo que é tudo que me dirige, que é toda a minha aparência perante a vida – passo pelos dias, tranquilo, como uma brisa de ar frio passa pelas gentes deste mundo, cortante, perceptível mas facilmente olvidável. Ninguém me conhece verdadeiramente, ninguém me vê como sou – tal como a brisa gélida que ninguém observa nem conhece mas que toda a gente sente, sou um pedaço visível de invisibilidade, uma luz ténue que se eclipsa quando se abeiram os territórios do sentimento. Conto os passos e as árvores, um e uma, dois e duas, três e três, rodo em círculos cá dentro e a linha recta dos passos das minhas pernas faz-me confusão, dá-me tonturas, náusea insuportável, talvez porque não me reveja no que faço e sim no que sinto, ou tão-somente porque o que sinto não é que o meu corpo sente e seja de todo impossível de continuar a ser dois em consciência (em inconsciência já muitos o são, sorridentes: malucos, diz o mundo), de prosseguir a contar objectos exteriores quando os interiores dão parte de si, morrem aos poucos seduzidos pela vertigem do desprezo – e acabo por não saber em quantos vou ou sequer se vou, se continuo, ou paro de repente de contar e desisto de ser para os outros desde sempre o mesmo que estas árvores e estes passos acabam por ser para mim, objectos exteriores que no fundo não contam para nada apesar de servirem para serem contados; sou um número, sim, é isso, um número, mais um coração que bate entre tantos milhares de milhões ou milhões de milhões, uma estatística, mera, simples, casual, sem interesse, pena que não me consiga ver dentro de um gráfico ou de um ecrã e me exclua de ser dentro de mim, roubar-me do meu interior, olhar-me de fora para dentro e ter a capacidade de ver o que as águas espelhadas do rio mostram.
Sou um som quando devia ser silêncio, é essa a minha submissão, o meu vergar real que, adormecido e anestesiado pelo sono e pelo sonho de não sentir que vivo, renego, veemente. Queria poder dizer nada, ser um vazio de voz, de palavras, e não entregar-me sem luta como faço, dar eco ao que não sinto e manter aprisionado, sem carácter para fugir, a tentação máxima de nada dizer – como gostaria de flutuar sobre os dias sem os tocar, sem os sentir! Como gostaria de passar pelos outros sem me magoar, sem o sangue da minha dor! Como gostaria de afagar o amor sem o estilhaçar, sem me estilhaçar!
Não consigo ser nada, ser pó – sempre este alguma coisa que é nada, este vácuo com dimensão física, uma inibição constante do impossível.
Amo, socorro-me de um abraço e de um beijo, extasio-me, rio, canto, danço, e depois, no final, no encontro a sós comigo na penumbra do quarto, arrependo-me de ter sido feliz, mutilo os meus actos com o sangue do pensamento que teima em escorrer por mim – e termino entrevado nos braços molhados das lágrimas, de olhos fechados, na quimera de um dia ser capaz de nada dizer.


Autor: pedro chagas freitas
Data: 09/02/04


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