Literatura

Diário de um Humano

Auscultadores de males...

Os cães avaliam a vida das almas...

Ladra um cão, nervoso, na soleira da porta – dizem que eles, os que ladram, são auscultadores de mal, seres avaliadores de seres, e que farejam, como a carne que lhes sacia o estômago, o terror de quem tem má rés. Não sou terrível, então – o cão olha-me, abana a cauda, pede-me carinhos com os olhos caídos, moídos, e afasta-se sem um único ladrar.
Por momentos fico contente, pensando, orgulhoso, que sou realmente um humano de boa têmpera, amado pelo animal polígrafo, detector de mal, mas logo esmoreço, ao lembrar-me de um corpo morto há muitos anos, na mata de um monte eivado de ervas daninhas, camuflado de verde – tinha a minha vida cinco, seis anos, e corria pelo monte na descoberta de tudo, na descoberta da descoberta, miúdo como os outros, rebelde, com o fiel Rex a saltar-me para as mãos, pedinchando ternuras no pêlo castanho e suave como seda.
De repente parou de correr, arregalou os olhos e ficou estático – notei-lhe a petrificação no focinho húmido, os mesmos olhos caídos, moídos, que há segundos este cão me deu a ver, depois seguiu, vagaroso, trémulo, até ao meio de umas silvas densas, e de lá me trouxe, arrastado como um velho destroço, um corpo pequeno, criança como eu, sem vida.
Não me recordo do que fiz então, nem sei se fugi com medo para bem longe ou se o abracei pensando que dormia, nem sei se ri se chorei – na memória nem a recordação em si mesma nem a recordação de algum dia ter guardado o que fiz naquele dia, tão distante deste, este que me transportou até ao passado nas patas sujas do cão que ladrava na soleira da porta.
Sou um defunto, corpo vivo com alma morta, afinal os cães não auscultam o mal, não, os cães avaliam a vida das almas – amam corpos vazios como uma mulher os primeiros actos de prazer, com medo, dor, mas sobretudo como desejo, excitação, masoquista.


Autor: pedro chagas freitas
Data: 11/02/04


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