Literatura

Diário de um Humano

Menina...

Menina força, menina pânico...

Menina de sardas na cara, saia curta a descobrir as pernas tortas e as meias de cores berrantes, porque molhas de lágrimas o passeio onde caminhas?
Menina de canção na voz, infiel companheira de um passado de traumas, porque corres para o escuro da liberdade?
Menina de olhos molhados, sósia perfeita da silhueta da dor, porque falas no que vês e escamoteias o que sentes?
Menina mãe, menina filha, criada e criadora, barriga de bebé e bebé de barriga, santa mãe a beijar o fruto, fruto apetecido no ninho materno, sobes as escadas de um prédio com o chão a penetrar-te, suja de passos, lixo e penumbras, descascas quem és só dentro de ti, parede que te contorna de pintura sem tinta.
Menina angústia, menina temor, vestes de branco e de bata apesar de coberta pelo negro, foges, gritas, esbracejas, esperneias, suas, tremes, parada numa cama de nome maca, perna aberta, possuída, fecundada por um ferro como outrora pelo sexo do amor, metamorfose de mal.
Menina força, menina pânico.


Autor: pedro chagas freitas
Data: 17/02/04


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