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Abro o jornal e vejo a morte esparramada, versada por alguém que julga escrever a dor, alguém que acabara de perder uma amiga e lhe dedica um conjunto de frases. O texto está bem escrito, tudo no seu lugar, a pontuação, as letras, as palavras dispendiosas – fujo dos sentidos, arremesso a mente de encontro à possível imagem de quem escreveu aquilo enquanto o fazia, e o que vejo faz-me sorrir. Um homem sentado em frente a um monitor, mãos no teclado, a despejar as ideias – não é próprio de quem sofre esquematizar tanto a dor, não é possível, em momentos ofegantes, quando o fim de quem amamos acabou de acontecer, colorir as palavras, dar-lhes enfeite, fachada, como não é possível acender uma lâmpada quando acabou a electricidade que a alimenta.
Não sofre como quer dar a entender o autor de um texto demasiado bem escrito para ser filho de uma dor verdadeira, é um embuste, uma farsa – quem sofre não sofre em palavras bonitas, sofre em calão, em crueza lexical.
Não é possível ser-se fino perante a morte.
O negro de um fim não se compadece com travessões, com dois pontos, somente com as pausas respiratórias simples, vulgares, do povo como é e sempre será do povo a morte, de um ponto final e de uma virgula – quando muito aparecerão também os pontos de interrogação, quando se torna impossível decifrar o que se passa cá dentro, quando questionar, indagar os porquês a quem de direito, parece ser uma fuga perfeitamente plausível, aceitável, normal na anormalidade disforme que é o que somos.
Rasgo o jornal com força e faço com ele uma fogueira real, com cheiro e fumos a pintarem o quarto. Olho o tecto e quando retorno à fogueira já ela não é real, já ela é uma enorme metáfora. São as chamas dele, o fumo dele, o odor dele, ele, o inferno, está ali, na minha frente, e o som das folhas a virarem cinza é o grito da podridão da hipocrisia, arma de vida que só a morte desmascara.
Rio bem alto, gargalhadas sádicas, como as que dizem que o senhor do mal usa para assustar, e penso: afinal o inferno, se existir, é um tribunal de justiça; afinal deus é quem mais beneficia com a existência de uma fogueira onde ardem os maldosos – será com certeza Ele a definir quem arde e quem não arde; afinal é deus quem ri em gargalhadas destas, o diabo não passará de um reles empregado, cumpridor devoto das ordens que lhe são dadas.
À medida que vou pensando, mudam as minhas concepções pré-estabelecidas. O mal, feitas as contas, é produto do bem – é Deus quem queima as pessoas, quem as escolhe a dedo, é Ele quem salva os que quer. Será então Ele menos perverso do que os que ardem numa fogueira como esta onde arde o jornal? Será a vingança própria de quem não peca, ou não será pelo contrário o maior dos pecados? E se é pecado, não deveria Ele ser também um dos escolhidos para virar fumo e apagar-se no ar?
A morte não é diferente da vida, são siamesas de uma realidade comum – ambas são micro sociedades de vícios, antros de hierarquias e ilusões, apregoadoras de um inócuo prazer chamado felicidade.
Autor: pedro chagas freitas
Data: 18/02/04





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