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Num carrossel de gente, anestesiada pela música que troveja nos ouvidos, viajam vidas embaladas pela aparência.
Dançam, riem, olham-se, imaginam-se, tocam-se, trocam-se, fingem mandar, ser donas do seu destino, dos seus actos, e esquecem-se que se estão ali é porque não passam de escravas de si mesmas, do físico, dos prazeres, das sensações que lhes permitem continuar a continuar.
Dois homens de copo na mão, recostados no balcão, criados de tentações, simulam uma conversa, movendo os lábios junto do ouvido alheio – atraiçoa-os o olhar fugidio que observa a menina quase mulher, de calça justa a roçar-lhes o corpo, afagando-lhes a libido. São filhos do homem, filhos de si – como gostaria de os imitar! Só sou como eles quando me fecho no corpo, pouso o que sou bem longe, e alimento-me de animais como animal que é a minha essência, selvagem – simplesmente não aguento muito tempo assim, sem ser, sem existir, logo caio na alma que tenho, e silencio o corpo já manchado de orgasmo.
É nesses momentos que me repugna ter músculos, sensações, vibrações, ossos, sexo, desejos – e sonho ser uma nuvem de fumo, um pedaço de vento, algo incorpóreo, sem matéria. Sinto que sou refém e que a liberdade é prisão, sinto que quando me convenço que não tenho pretensões estou a mentir, porque afirmar não ter pretensões é uma pretensão imensa.
Os homens e as mulheres que dançam em meu redor são apenas reflexos de mim mesmo antes de estar saciado, pobres coitados, eu e eles, dependentes de um descarregar eléctrico de sensações como de pão.
Fito as luzes que acendem e apagam, de cores diversas – em todas elas um orgasmo, um pico de euforia, que se acende e apaga, mas que parece nunca mais parar de o fazer, como num carrossel que é isto onde estou, um parque de diversões que vende a hipotética obtenção de um clímax.
Estamos em estado de pré-orgasmo, aqui, alheados da desgraça de o maior prazer que a vida nos oferece ser também o mais curto.
É uma das coisas mais diabólicas de estar vivo em corpo: por um lado querer ser só animal, ser só matéria desgovernada, bússola com ponteiros sem razão – e nunca deixar de pensar por detrás da cortina das sensações; por outro querer nada sentir, desejar não ser refém daquilo que nos deram para vestir a alma – e jamais ter a força de deixar de ser pusilânime.
Sou talvez o ser mais cobarde do meu bairro, deste conjunto de casas alinhadas que acolhem o quarto onde estou comigo – só eu estou acordado, a madrugada a despedir-se na exígua vidraça, frustrado de corpo e de alma; não consigo entender-me nem consigo alimentar-me – consigo, nos melhores dias de mim, algumas reflexões sem sentido, desconexas, mas que aos meus olhos são poesia, pois é nelas que me encontro e não nas grandes obras que outros que não eu escreveram.
Cai um pássaro na retina da chaminé, sou eu em voo picado pelo subsolo do homem.
Autor: pedro chagas freitas
Data: 23/02/04






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