Literatura

Diário de um Humano

A morte ao virar da esquina...

Somos crianças de vida...

A centímetros do limiar de uma esquina de mim, um céu estrelado, forte, tenso, cobre um humano de face escura, negra, sublinhada pela escuridão da noite.
Não está só, o homem. Debaixo de si, estendida no chão gélido, molhado pela chuva que há bem pouco tempo caíra, está uma criança, muito criança, com aspecto de criança: terno, carinhoso, rechonchudo, choroso.
Está nua, o pranto cobre-a de cima a baixo, como que um ai que ela ainda não articula mas que já sente.
O homem também está nu, mas não chora, ri, ri bem alto, meneando a anca que está sobre o pobre corpo da criança, uma mão a guiar o sexo rijo para o pequeno orifício que a parte de trás do menino lhe oferece.
Entra e sai, e o choro aumenta, mais e mais, e o céu sempre estrelado, e a noite sempre noite, e a dor sempre dor no miúdo que sente pela primeira a que sabe ter alma, porque a dor não é física apesar de ser, é dor diferente, algo que ele não compreende o que é nem saberia exteriorizar mesmo que entendesse, uma faca fina, suave, delicada, que lentamente dizima qualquer coisa lá dentro.
O homem não cessa, há sangue a cair, a sair do menino bebé criança, que chora, chora como se a morte o estivesse a incomodar, como se a vida o atirasse para dentro de si mesmo, o mais doloroso poiso onde um homem pode estar.
De repente, os gritos de espasmo, a morte súbita de um orgasmo, a força de um corpo sobre outro, desenhada nas palmadas pujantes, no adeus do despojo
O homem veste-se, vira-se de costas para o bebé mas retorna logo depois. Encosta o sexo, já mole e fraco, na boca do menino, toca com ele no nariz, nos olhos, na testa, simula um chicote sexual, e finalmente obriga a criança a abrir a boca, enfia-lhe lá dentro o monstro de ferro que era agora um pedaço enrugado de músculos e veias salientes.
Ouve-se o riso, desta vez é mesmo o abandono final.
O miúdo fica no chão encharcado, esparramado, a chorar, nu como viera pouco tempo antes ao globo de horrores que é a vida, enquanto o homem aperta o cinto das calças, afaga lentamente o cabelo, enxagua com um lenço, que tira de um bolso do casaco, a testa suada, e caminha descontraído, satisfeito, assobiando com o lábio superior bem junto ao inferior.
Ultrapasso o limiar da esquina e leio, num cartaz, redondo e luminoso, situado no silêncio que separa o coração da razão: A morte é o pedófilo, ao virar da esquina, que nos espera, crianças de vida.


Autor: pedro chagas freitas
Data: 26/02/04


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