Literatura

Diário de um Humano

O mal...

Só consegue saber tanto do mal quem está imerso nele...

Na minha frente, fechado dentro de um televisor, um homem fala-me em dignidade, fala-me em verdade, fala-me em honestidade – sempre na negação dos conceitos, apedrejando telhados de amigos, colegas ou simples conhecidos. Ataca para todos os lados, diz que não se revê no que encontra, que sente nojo de ver o estado das coisas, das pessoas.
Gravo a imagem num ficheiro dentro de mim, copio-o para um programa diferente e amplio a cara dele até à exaustão, até a sua pele ser um conjunto imperceptível de pontos picotados, disformes. Lentamente, a imagem vai-se alterando, a pele baça fica visível, nítida, e na frente do homem, do púlpito onde ele discursa, vai-se desenhando, imponente, um enorme espelho, de forma indefinida no início, depois percebe-se perfeitamente que o espelho se ajusta aos contornos do rosto do dono da palavra, encaixando-se nele na perfeição.
Só consegue saber tanto do mal quem está imerso nele.
Recordo as palavras, a minúcia da descrição, os pormenores encadeados, tudo tão bem explicado, tão com sentido – era ele aquilo tudo, não passava da sua descrição aprofundada, verdadeira, oferecida numa bandeja a quem o ouvia e não percebia que aquilo era uma confissão camuflada, um pedido de perdão ofensivo, como se ao identificar os pontos negros, como se ao colocar o dedo na ferida tudo se transmutasse e o sangue que afinal era nele que corria, a perfurar-lhe a alma, saltasse para quem ele acusa. Quem ele quer eliminar é ele mesmo, mesmo que tenha de começar por todos aqueles que são reproduções suas – um homem ofensivo, crítico, e acima de tudo excelente a perscrutar os defeitos alheios, é o homem múltiplo, ataca e ataca-se, critica e critica-se, destrói e destrói-se.
Quem sobe a um patamar, a um degrau, a um altar, e declama a sua grandeza perante a pequenez alheia, de outros, e esmiúça os males, os cancros, é cantor da sua canção – só o autor da canção conhece os tons, a letra, de principio a fim, sem falhas. É um homem prevenido, que antecipa o dia em que lhe tirarão de cima a capa e lhe arrancarão a máscara, e que por isso carrega já os olhares para outros que não ele, ilibando-se sem julgamento de uma culpa incontornável que ele sabe que é sua.


Autor: pedro chagas freitas
Data: 01/03/04


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