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Diário de um Humano
Dois cães, quatro olhares, uma dor...
De nada adianta fugir do corpo que fui se não conseguir escapar-me à alma que ainda sou...Quatro olhares, dois cães acorrentados.
Olham-me com olhos de: ajuda-me, por favor. Olham-me com olhos de: socorro, não quero ser cão. Olham-me com olhos de: fui feito para correr solto e não para estar preso.
Fico muitos minutos a observá-los – acabo por me sentir a entrar dentro deles, acabo por me ver como eles me vêem, sou agora um cão ou dois cães, e vejo-me diante de mim, com um ar altivo, lá no alto, como se de facto fosse superior a mim, que sou agora cão e cães, como se por pensar fosse mais que eu, que agora ladro, como se a racionalidade da razão fizesse de mim mais capaz, quando é precisamente o contrário, quando eram a razão e o pensamento que de mim faziam, quando não era o cão que agora sou, o mais reles dos animais, o mais decadente dos seres, porque só quem pensa consegue ver aquilo que na realidade é e não é, só quem pensa vê a incongruência que é isto tudo.
Os animais, como eu sou desde que virei cão de oito patas, são apesar de tudo mais livres do que eu era, mais felizes do que eu alguma vez fui – sofrem, presos, acorrentados, tantas vezes maltratados, mas encaram o sofrimento como encaram a chuva e o sol e o vento e o frio, como oferendas da natureza que são obrigados a enfrentar sem ripostar, apenas encarar como natural e prosseguir com a existência que só lhes pede comida para comer e água para beber.
Sou um cão, mas um cão com alma porque não deixo de ser eu aqui por debaixo deste pêlo, deste corpo de quatro patas. De nada adianta fugir do corpo que fui se não conseguir escapar-me à alma que ainda sou.
Volto para o corpo humano de aspecto sofrido para não ser falso e dar aos que me vêem o aspecto que realmente tem a minha alma – e também para não entregar a estes cães presos que me olham, pedintes, a tristeza de serem quem eu sou.
Autor: pedro chagas freitas
Data: 19/03/04




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