Literatura

Diário de um Humano

A morte, refreadora de mal...

Só quando a morte aparece, tememos pelo que fizemos...

Somos vivos, e é nessa vida que se anicha, sorrateiro, o mal; é uma das consequências de ser vivo, de respirar, de existir; longe da vida, perdemos consciência, perdemo-nos no mar seco de ser inexistência, e não conseguimos ter ouvidos, boca, nem olhos para ver o mal, nem mãos, coragem para o fazer.
Conseguimos ser imunes ao sentimento, tantas vezes, bastardos de amor, e magoamos sem olhar a quem, senão a nós próprios. A maldade habita-nos, fere-nos e faz-nos ferir, e acabamos como uma tinta na parede, somos tinta e a parede mal, dentro de uma casa feia, pequena, vendida, que não nos pertence, a vida.
Procuramos evadir-nos por palavras, mentimos a quem somos e a quem vemos, picados de seringa ilusória, fantasia da realidade de nós, subimos ao palanque da mentira, contamos histórias, inverdades, a outros que nos acreditam, que nós pensamos que nos acreditam, outros que nos respondem, irmãos paralelos, com palavras, mentiras tão mentiras quanto as nossas, e que nós engolimos, exânimes, feridos de resistência.
Enquanto vivos na vida, segura, inalienável, inquebrável, não sofremos de remorso de não sermos bem, de sermos mal, vezes demais, de sermos pânico, sempre, de sermos dor, própria.
Só quando a morte aparece, a sua sombra, a sua perspectiva, a sua antecipação, a sua silhueta, a sua forma, enfim, a sua escuridão, tememos pelo que fizemos, egoístas, preconizamos o bem, que nunca nos habitara, e tornámo-nos altruístas por interesse, santos com carapaça de tartaruga velha, lenta, que procura, num último suspiro de imploração de vida, ajudar aos outros para se auxiliar na sua caminhada para detrás de uma barreira, blindada, em que a existência conflua para a segurança, desperdiçada, da eternidade, antónimo óbvio de vida, de humanidade.
É a possibilidade, quando próxima, quando real, quando exaladora de odor, de um fim, que nos permite lutar contra o que a natureza nos deu, brincalhona, articulando o que fazemos como um jogo de xadrez – somos peões, genuínos, inúteis, secundários, usados e voltados a usar, usados e voltados a usar para salvarmos, defendermos, oferecermos corpo e alma ao manifesto, protectores do rei e da rainha de um tabuleiro viciado, de uma vitória entregue ao oponente.
Só a morte nos humaniza.
Sem morte, só com vida, e com consciência de eternidade real, seríamos um infinito contingente de soldados de terror, guerrilheiros insaciáveis de desejos próprios, asnos de egoísmo – é o ofício da morte, ser monitora de bem, formadora sem rosto, presente na vida, sem corpo ou fotografia, mas presente.
A morte, refreadora de mal, instigadora de humanidade.


Autor: pedro chagas freitas
Data: 21/03/04


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