Teatro

“AS LÁGRIMAS...”

Dia Mundial do Teatro fecha em grande na Trindade

Encenada por Paulo Alexandre Lage, esta peça em que as mulheres e os seus fantasmas emocionais imperam estreou no passado sábado no Bar do Teatro da Trindade, encerrando assim um dia que comemora essa grande arte que é o teatro.

Marlene, o silêncio que tudo diz; Sidónia, a aparência; Karin, a superficialidade tentadora; Petra, o furacão emocional, o tudo ou nada. Estas são quatro das personagens que compõem a peça “As Lágrimas...”, a qual estreou no Teatro da Trindade no passado dia 27 e estará em cena de Quinta a Sábado, até 24 de Abril, a partir das 23h30. Um trecho da vida de Petra Von Kant ( personagem originalmente criada pelo cineasta, produtor e actor, entre outros, Rainer Werner Fassbinder), na sua interacção problemática e complexa com a vida e as pessoas com quem se envolve.
O bar do teatro estava cheio, com cerca de quarenta pessoas prontas para assistir a mais uma produção da companhia teatral “Magia e Fantasia”. Paulo Alexandre Lage, o encenador, parecia movimentar-se ansiosa mas calmamente, dispondo os convidados que iam chegando pelas mesas do espaço.
Em frente, o pequeno cenário: parede vermelho-escuro, ao meio uma chaise longue -lugar que todas as personagens ocupam ao longo da peça, o que simbolicamente pode traduzir o facto de praticamente todas elas, à excepção de Marlene, ocuparem o espaço íntimo das emoções de Petra Von Kant. Petra, a estilista bem sucedida mas dependente da totalidade dos seus sentimentos mais profundos: a amargura aparente, o desejo incansável de viver a par da desesperança constante, da incapacidade de deixar o limbo.
Abre o pano- neste caso inexistente porque toda a exibição prima por uma excelente interacção com o espaço, diga-se de passagem. As personagens movem-se pelo meio do público, partem-se taças que molham os presentes, o “palco” principal dista menos de um metro das primeiras mesas. Há portanto uma proximidade eventualmente perturbante para as actrizes no início da peça- notou-se um certo nervosismo de Paula Garcia (Petra), decerto também inerente a uma estreia, mas que foi francamente superado à medida que a acção se desenrolava e, com crescente à-vontade, a personagem ficava semi-nua perante quem assistia e parecia soltar o lado mais selvagem da própria actriz.
Petra Von Kant é uma personagem violenta, intensa: no meio dos seus vestidos e dos seus desenhos ela finge um equilíbrio (por exemplo com Sidónia, amiga próxima) disfarçado de amargura e de uma crença estável na evolução das coisas . “Caríssima, só devemos lamentar aquilo que não compreendemos”, diz ela a Sidónia logo após o início, quando esta visita a amiga após chegar de Frankfurt e acha que a vida fez de Petra uma mulher amarga, depois do fim da relação tumultuosa com Frank. Ela responde “pareço amarga porque uso a cabeça”, mas é interessante ver a evolução da personagem a partir do momento em que conhece Karin: uma jovem de evidentes qualidades físicas, mas pouco escrupulosa desde o início. Ela quer ser modelo, mas deixa bem clara a falta de apetência pelo esforço nesse sentido: é então que Petra a “adopta” e se torna uma espécie de sua mentora, crendo firmemente que lhe mostrará “o verdadeiro interesse da vida”. Introdu-la no mundo da moda, acolhe-a em sua casa, propõem-lhe serem amantes porque a atracção parece inevitável entre ambas- fingida e interessada para Karin, que “gosta muito dela”, e absoluta para Petra- que aprenderá com essa relação o perigo de um sentimento vampiresco, de um desejo violento e destruidor de posse ainda que mascarado de amor. Ela, que anteriormente já acreditava que “tudo o que é bom acaba depressa” mas parece deixar-se de novo levar por um fogo que a consumirá aos poucos, e que a mergulhará temporariamente num gosto excessivo pela bebida e por chocar e desapontar os outros- a filha, Gaby (Sandra Guerreiro); a mãe, Valéria (Ana Sarabúa); a “amiga” Sidónia (Susana Vitorino).
Marlene (Carla Carreiro), por seu lado, é a mais silenciosa (totalmente silenciosa, aliás, porque não pronuncia uma só palavra em toda a peça) mas sem dúvida a personagem mais marcante a seguir à protagonista. Ela é quem “ouve tudo, vê tudo, sabe tudo”, pelas palavras da própria Petra; a assistente que não fala mas simplesmente obedece, passivamente dedicada ainda que sempre vigilante das acções da “patroa”- alvo do seu amor platónico e quase indiferente para a mesma.
Na verdade, Marlene estaria quase que condenada a que não reparassem nela- só que ela está presente na vida de Petra Von Kant do princípio ao fim, sempre no seu lugar estável, e é para a estilista o que esta será para Karin- um instrumento, um objecto de carinho assente na compaixão. Ela observa tudo no seu sofrimento mudo: cada olhar, cada posicionamento no espaço cénico demonstra isso e é por essa razão que a sua personagem se torna tão interessante- quando Karin vai viver lá para casa ela continua a ser uma criada para todo o serviço, um saco de pancada, mas de cara virada. Assiste a tudo impávida, do alto das escadas, encostada à parede e envolta numa névoa de tristeza mas nunca abrindo a boca; a sua crítica (como de resto a sua relação com Petra) é feita de olhares, de passos lentos, como uma espécie de Coro individual que não julga com palavras mas com gestos.
A grande matéria desta peça é, indubitavelmente, a vulnerabilidade do ser humano, e isso é extraordinariamente mostrado (como de resto não poderia provavelmente ser se a via fosse outra) através de um foco em relações femininas. Petra Von Kant é uma mulher rodeada de mulheres, e um furacão que revolve a vida de todas elas de diferentes formas: porque despreza quem a ama, e é desprezada por quem amará- sendo que daí tirará a sua grande lição, e daí aprenderá a recomeçar.





Autor: Andreia Monteiro
Data: 28/03/04


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