Teatro

O amor a Portugal

estreia hoje no S.Luiz

Esta será, decerto, uma das peças teatrais do ano, até porque reúne nomes muito em voga no actual panorama humorístico nacional. O Teatro de S.Luiz, no Chiado, tem as honras da recepção do espectáculo.

Três em um: só um palco e, partilhando o mesmo espaço, o céu, um quarto com mobilação altamente moderna e o cenário dos "Golden Afonsos 2004", os óscares à la portuguesa. Melhor dizendo, à la Produções Fictícias, de onde vêm os autores de "Portugal, uma Comédia Musical" - Nuno Artur Silva e Nuno Costa Santos.
Um conjunto mirabolante, diga-se, tal como de resto toda a peça - a começar pelos actores/personagens, escolhidos a dedo de entre personalidades conhecidas do humor, da música, da moda.
Mas adiante, comecemos a história de duas horas e meia, que tem início no fim. Sofia (a "bomba" Marisa Cruz, que agora se dá a estes desfrutes teatrais), loiríssima e superficialíssima, apresenta o "Afonso Personalidade do Ano 2004" em directo da TP (Televisão Portuguesa). Por entre trejeitos de marioneta desarticulada, ela passa pelo meio do público - onde se encontram os nomeados, cada um mais estranho do que o outro - até anunciar que Vasco Mello (com dois "lês", nome predestinado à fama do modesto Tozé, rapaz das Beiras que entretanto adoptou a pronúncia lisboeta) é o feliz contemplado. Este, feroz defensor da nação com os seus fatos verde e vermelho de gosto duvidoso, faz o inédito discurso de agradecimento aos pais, "que muito o apoiaram", e aproveita para declarar o seu amor à apresentadora - que salta efusivamente para o seu colo, não sem antes pousar para todas as câmaras presentes.
É então que assistimos ao percurso árduo de Tozé (o rapaz que faz levantar e rir, Marco Horácio): o desconhecido que queria ser famoso, e que salta das Beiras para Lisboa com a maleta de cartão atrás de si. Pulando de casting em casting, tentando adaptar-se qual camaleão aos refinados gostos da fama, Tozé mantém a sua ingenuidade e o seu sonho do princípio ao fim. Ele quer ser o protagonista de uma novela género "Bodyboard com Kiwi" (reconhecem a alusão?) aparecer nas revistas, "ser o Rei do zum zum", e na sua dedicada paixão pela televisão acaba por encontrar a sua musa - Sofia, que nem por acaso até já é famosa.

Mensagem divina...

Entretanto, cá em cima os deuses reúnem-se. O Deus das intervenções inadequadas, a Deusa do amor (Susana Félix, que aliás se portou à altura), o Deus É Assim (António Cordeiro, autoridade suprema do Olimpo) e o Deus estagiário (o mais uma vez genialmente discreto e estranhamente modesto Bruno Nogueira, actual menino bonito do humor nacional) decidem que, para passar a mensagem divina aos homens, terá que se escolher um local e um humano adequado. Exactamente, nada mais nada menos que Tozé, que espalhará a mensagem em Portugal após ter-lhe sido concedido o seu desejo.
E, pergunta-se o público, porquê Portugal? - Porque o país não está "nada famoso",é a resposta.

A ligação escaldante

Manuel Marques (Fernando Estrela, professor de Português na C*S do Cacém e intelectual inverterado) é a alma caridosa que aluga um quarto a Tozé quando este chega a Lisboa, e que, por habilidade de um Cupido estrábico enviado pela deusa do amor, passa a ser alvo do afecto inflamado da loira Sofia - que deveria ter-se apaixonado por Tozé. Pois bem, depois de uma série de enganos, próprios de um anjo do amor já destreinado, apaixona-se a astróloga espampanante pelo deus estagiário e quem fica famoso é o sorumbático Fernando, por começar a namorar com a famosa apresentadora.
Desfeitos os equívocos, estaria tudo explicado: Tozé tornar-se-ia famoso por ter alugado um quarto a Fernando, que por sua vez era perseguido pelas mesmas câmaras que perseguiam a namorada dos seus pesadelos e dos sonhos do seu hóspede.

"Prontos" e "É assim"

Estes são, além dos ditos mais populares entre o povo português, os nomes atribuídos aos deuses que assumem o comando do destino de Tozé. Prontos (Bruno Nogueira), em particular, será o típico estagiário rebelde que vai concedendo umas facilidades ao seu discípulo, e que viverá com ele uma série de peripécias cómicas.
A destacar aqui, a construção provavelmente fácil mas nem por isso menos eloquente do personagem de Bruno Nogueira, cuja parceria com Marco Horácio resultou em pleno. O "miúdo" tem um talento qualquer, que ainda não se percebe bem qual é mas que lhe vem daquele ar descontraído de quem diz uma piada como quem faz a coisa mais prosaica do mundo...


Comédia musical... da ironia

Nesta peça a música está, de facto, sempre presente e aliada ao humor extremamente sarcástico. Bailarinos, cantores entre o elenco e vários estilos à mistura - rap, salsa, tango, etc- dão o mote para se fazer,em simultâneo, um elogio e uma crítica aos portugueses. Políticos a consultar astrólogos; futebol e telenovelas (os principais desportos dos lusos); João César Monteiro a ser pressionado para tirar o casaco da frente do projector (em homenagem ao polémico e liso "Branca de Neve"); um Jovem do Restelo que se inssurge contra a Fama, numa inesperada referência aos Lusíadas. Estes são apenas alguns dos elementos que compõem uma peça onde os talentos presentes confundem o espectador, numa constelação inédita de estrelas que concederam furor a esta peça (muito bem encenada por António Feio) logo na ante-estreia.

The end...

No fim, volta-se ao começo. Dão-se mais uns ares de revista à portuguesa, depois de uma brilhante performance de todos os personagens (estilo "Mayumana"), e, quando já se pensava que as coisas iam descambar pela previsibilidade das mensagens bonitas e politicamente correctas, deixa-se a mensagem humorística e lança-se o repto: "Cupido, faz com que Portugal se apaixone por si próprio". Portugal, o país que se conhece entrando numa tasca...





Autor: Andreia Monteiro
Data: 28/04/04


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