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Diário de um Humano
A noite da tenda
Promessa e ser humano não são compatíveis dentro de um mesmo todo...A noite da tenda
Noite, escuridão, chuva.
Um casal, uma tenda.
Ondas, mar, natureza, fúria.
Gritos de: amo-te. Gritos de: vem, ama-me. Gritos de: quero-te.
Gritos na noite da tenda.
Árvores, vento, ruído.
Gritos na noite da tenda.
Um trilho de terra no interior das árvores.
Duas vozes, dois sussurros de medo dentro de duas gargantas sem medo: não falhes, faz tudo como planeado, não falhes.
A tenda em movimento: amo-te.
Os passos dos sussurros: não falhes.
A lua, as nuvens – interstícios de luz em tectos de negro, pedaços de algo num céu de ninguém.
Um carro, dois faróis.
A tenda, risos ingénuos.
Por detrás de duas árvores, as duas gargantas sem medo.
Lentas, as luzes afastam-se.
O retorno da escuridão.
Os passos mais rápidos dos sussurros.
A tenda, palavras, futuros, utopias, vidas: vamos casar e ficar juntos, ser um só como estamos, ser uma alma como somos um corpo.
Mágoa, repressão, passado, vingança nas vozes abafadas: chegou a hora, finalmente chegou a hora.
Abraço, suor, calor, lábios, peles.
Os passos e a tenda cada vez mais próximos.
Vingança, amor – gémeos nados ainda não mortos de um mesmo pai.
Uma gota de chuva numa folha de uma árvore.
Os sussurros na porta do suor.
A gota de chuva cai na tenda, a gota de chuva já não é uma gota de chuva, é uma gota de água, uma simples gota de água que um dia foi chuva e não conseguiu ser chuva, porque só é chuva a sério, chuva adulta, a chuva que vem do céu e cai no chão – a gota de água que não é chuva é uma promessa que nunca é certeza, uma esperança sem fim, uma esperança sem rumo, barrada no caminho por uma árvore chamada destino.
O amor dentro da tenda, uma gota de água que não conseguiu ser chuva.
As últimas palavras: não me deixes. As últimas palavras: vou ser teu, só teu, nunca te vou deixar. A última promessa: nunca te vou deixar.
Promessa e ser humano não são compatíveis dentro de um mesmo todo.
Uma faca, uma lâmina refulgente, um rasgão.
A tenda sem ser tenda, a tenda: pano cortado, pano estendido no chão de lama.
Ramos, pássaros, silêncio, cantares de medo.
Dois corpos despidos.
Um rosto, um riso no espelho da lâmina: sou eu, minha filha, sou eu, vim resgatar-te.
Um rosto, um cantar no troar da alma: não, não, não, não, não, não, não, não.
Outro rosto, outro riso no espelho da lâmina: sou eu, meu filho, sou eu, vim salvar-te.
Outro rosto, outro cantar no troar da alma: não, não, não, não, não, não, não, não.
Um gesto, penetrar, uma mancha de sangue no pano de fundo de um rosto que ri.
O troar da alma é solidão.
Outro gesto, as luzes do carro, o penetrar apagado, o penetrar por penetrar, por acontecer, a mancha de sangue amordaçada a um futuro que não foi.
Dois corpos, uma chave, duas portas de carro que se fecham, uma de uma casa que se abre.
Uma mão, uma casa, uma televisão ligada.
Um ecrã que se fecha, uma tenda que morre.
Autor: pedro chagas freitas
Data: 19/09/04





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