Literatura

CONTOS COMPLETOS, VOL. 1

Histórias recontadas por Nathaniel Hawthorne

«Eis-me hoje de novo sentado no velho e familiar quarto onde em tempos era meu hábito sentar-me…Aqui escrevi tantos contos… muitos queimei-os eu, outros talvez merecessem a mesma sorte. Este quarto deveria ser chamado o quarto dos fantasmas...

Ainda nos seus primeiros anos em Salem, em 1828, escreve o romance, Fanshave, que publica em edição de autor e mais tarde retira do mercado. Será após um longo retiro consagrado à reflexão que inicia a sua carreira de escritor, publicando inúmeros contos e novelas curtas em publicações periódicas, que reúne sucessivamente em livro em 1837, 1842 e 1851, sobre o título genérico de Twice Told Tales (Histórias recontadas). Entretanto, em 1842, após uma experiência de vida comunitária sob os auspícios filosóficos do transcendentalismo na Brook Farm, já casado, transfere-se para Concord, Maine, onde trava conhecimento com Emerson e Thoreau. Os contos e novelas escritos neste período serão agrupados e publicados em 1846, com o título Mosses From an Old Manse. O seu primeiro grande sucesso em vida foi The Scarlett Letter (1851), considerado hoje um dos romances de referência da literatura americana. Seguiram-se, como obras que se podem destacar na imensa produção literária do autor, The House of the Seven Gables (1851), a recolha de contos, The Snow Image (1851), The Blithedale romance (1852) e The Marble Faun (1860).

Com este primeiro volume a Cavalo de Ferro inicia a publicação completa dos contos e novelas curtas de Nathaniel Hawthorne, de quem se comemora este ano o bicentenário do nascimento.
A ocasião serve para divulgar devidamente junto do público português uma parte significativa da obra de um dos maiores escritores da literatura norte-americana, que pertenceu ao período que se poderá designar como a sua Idade de Ouro.
Entre os escritores normalmente agrupados sobre o signo do «transcendentalismo» de Emerson, oriundos da puritana Nova Inglaterra, Nathaniel Hawthorne foi, segundo a crítica, aquele que melhor conseguiu dotar de formas clássicas o seu romantismo latente, bem como aquele que conseguiu dar ao seu país, com The Scarlett Letter, uma obra-prima indiscutível da arte narrativa. Talvez por isto ele pareça ao leitor europeu menos americano que Poe ou Melville, e o seu nome seja normalmente recordado ao lado por exemplo do de Hoffman ou Richter. No entanto, trata-se, como sempre, de um jogo de semelhanças aparentes que tendencialmente tendem a conduzir e a fechar o autor num qualquer sub-género – sobretudo, aquele do «conto fantástico» – ligado à literatura romântica. Hawthorne, pelo contrário, segundo a crítica americana, é em muito um produto típico do seu tempo e do seu ambiente, a Nova Inglaterra de meados do séc. XIX, e mesmo a «fantasia» do autor não pode ser lida sem se pensar nesse decompor em parábolas e alegorias da sua vida moral.
Mas Hawthorne foi, sobretudo, um escritor que produziu uma obra imensa (vinte e dois volumes apenas nas edições publicadas em Boston, entre 1900 e 1904!), tendo mesmo sido por muitos anos um escritor profissional, concentrado, segundo um dos seus críticos da época, Norman Holmes Pearson, «no tipo de escrita que podia vender»; ou seja, foi um escritor que se fixou sobre um tipo de argumento e um estilo de o narrar susceptíveis de comércio, sofrendo, como Poe (certamente com menos loucura), o destino de todos os escritores que não trabalham unicamente para si mesmos.



Autor: Luís Guimarães
Data: 13/11/04


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