Literatura

Diário de um Humano

Eu como tu...

Ao subir as escadas que o levam ao cimo de si, o homem normalmente tende a ter vertigens...

Dois homens diante de si, diante de um reflexo que vêem e que os faz penar, dois homens no diálogo eterno de quem ousa questionar.
- Sôfregas de tédio, tremem as mãos sem ter chão, sem ter tecto, sem ser mãos, mãos que são mente, que são dor, que são medo, mãos que tremem de morte e de dor e de medo, mãos como eu, que tremo sem ter tecto nem chão, sem ser eu, eu que sou mente, que sou dor, que sou medo, que tremo de morte e de dor e de medo.
Longe da negação, a capacidade de olhar para dentro e fugir do que existe cá fora, do que as aparências trazem sem exactidão, sem substância – a verdade
- Eu como tu.
Um não querer que é uma impossibilidade, uma festa em que os únicos convidados são os que não sabem por que é que foram convidados
- Não acredito na vida, na capacidade de sorrir de quem tem olhos e vê, de quem tem ouvidos e ouve, e vê o choro e ouve os gritos, e vê o sangue e ouve os tiros, e vê as lágrimas e ouve as ordens, e vê o espelho e ouve o fim.
Uma nova imagem, uma imagem de utopia, da utopia desejada mas só alcançada quando não é desejada, como uma personagem má e vil de uma telenovela real que só termina o seu papel no preciso momento em que o público começava a gostar dela
- O fim é uma voz dentro da voz, o fim é parte do princípio, parte do meio, o fim é principio e meio e fim, porque em cada começo há um fim, ao nascer uma vida nasce uma morte, ao continuar uma vida há uma morte, ao haver um caminho há um destino, uma meta, um fim.
Ao subir as escadas que o levam ao cimo de si, o homem normalmente tende a ter vertigens, tende a não conseguir fugir da sensação de terror que é saber que se é algo e não se perceber por que é que se é algo – ou sequer se ser algo é ser algo para o mundo ou se é somente algo para os olhos que vêem, por mais voltas que se derem, tão-somente aquilo que vêem, e não aquilo que são
- O fim é uma distância, apenas uma distância, somente uma distância, uma distância entre estar e não estar, entre andar e cessar, entre subir e descer, uma distância, uma curta e leve distância, um sopro de tempo, um fim.
Morrem palavras, nascem palavras, a viagem da linguagem de pólo para pólo, de frase para frase, a linguagem é um moço de recados que por vezes não faz bem o seu serviço, um moço de recados que aqui e ali desvia a encomenda e a entrega num sitio diferente do estipulado, só pelo prazer de ter o poder de governar quem pensa governar, de ser o dono do destino daqueles que lhe pagam e pensam ser os senhores de si e daqueles a quem pagam um reles salário no final do mês – a linguagem governa-nos mesmo quando temos a certeza de que somos nós quem governamos a linguagem
- Há um fim entre um bebé e um velho, o mesmo fim, e encontro rugas onde há doçura, e encontro doença onde há ternura, e encontro loucura onde há candura, e desisto de olhar, e desisto de querer, porque nada vejo, tudo encontro, porque imagino futuro onde há presente, porque elimino a distância, elimino a voz, elimino o fim, o medo, a dor, a mente, e fico sem tecto nem chão, e tremo.
Dois gumes de uma mesma navalha, a confirmação de que por mais diferenças que tentemos encontrar entre o Eu e o Tu, há sempre um Nós, um Nós que somos nós, que sempre seremos nós – nós somos um Eu e um Tu irmãos, com aparências diversas, um loiro e outro moreno, um de fato e gravata e outro de fato de treino, mas que, despidos e sem cabelo, são afinal exactamente iguais, com a mesma cicatriz no mesmo sítio, as mesmas rugas no mesmo pedaço de pele, o mesmo buraco à esquerda do peito
- Tremo como tu.
Num último esgar de cérebro, uma argumentação que vive de uma lógica de sentidos, uma lógica de emoções – uma lógica que no fundo é a subversão completa de todas as lógicas, já que vive daquilo que de mais ilógico temos e ainda assim julga fazer lógica: a lógica do sentir
- Tremer é crescer, tremer é saber que os limites existem, que os limites são os órgãos que movem à revelia, o corpo que balança e voa sem vento, sem ordens, tremem e entendem que nada somos mais que uma árvore ou um pássaro, que como nós balançam e voam sem saberem como, porquê, para quê, só pela simples e capitular razão de ter de ser porque é, de ter de acontecer porque acontece, como em tudo que somos e vemos e insistimos em perceber, e quando julgamos ter entendido basta um simples olhar de novo, um simples voltar de olhos, para tudo ser arrancado cerce, para tudo ser zero, vazio, um enorme e luxuoso espaço cheio de nada, eu.
A maior das conclusões, a conclusão que cada um de nós quando sincero terá de extrair do que é
- Eu como tu.


Autor: pedro chagas freitas
Data: 10/12/04


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