Literatura

‘E BOOK’ - ALTERE VOCÊ MESMO!

‘Em Busca da Tanga Esquecida’

Para dar novo rumo aos acontecimentos copie o texto, faça as alterações que entender (uma cor para os cortes e outra para a sua prosa), mantendo o texto-base a negro e envie para 123.321@sapo.pt. Em Janeiro terá a devida recompensa pelo seu esforço

Esta é uma história anódina sobre a falta de fato de banho (biquini ou tanga) de uma moçoila e as implicações antropomórfico-psicanalíticas de um desfecho previsível.

Ela era uma amiga minha há já longos anos. Nunca tivemos uma relação perigosamente próxima – não que a certa altura isso não me tivesse passado pelas cabeças –, por isso o nosso relacionamento tem decorrido sem grandes problemas ou sobressaltos.
O que vos quero contar, de forma algo romanceada, é uma situação por ela vivida que brada aos céus, pelo inusitado e pela pilhéria que a envolvem.
Da mesma forma que ela me-la contou a passo para vocês, começando pelo raiar do dia em que tudo aconteceu.
Era cedo, de manhã, quando uma certa incomodidade começou a perturbar o seu sono meio dengoso, agora que se dava conta de que o dia já tinha nascido e que uns impertinentes raios de luz conseguiam atravessar as frestas da persiana mal fechada. Nem o corpo nem o seu íntimo denotavam a sensação de um descanso reparador que esperava conseguir, depois de uma noite agitada pelas ‘capelinhas’ lisboetas, na companhia do seu habitual grupo de amigos.
Aliás, para muitos dos seus pares de geração, aquela noite teria sido o máximo, pois divertira-se bastante, não parara uma hora completa em qualquer dos lugares por onde tinha passado, à excepção do jantar, soberbo, num pequeno mas singular restaurante incrustado na cascata do casario das Azenhas do Mar, com uma vista magnífica sobre as águas, certamente geladas, do negro Atlântico, que mais do que se deixar ver fazia-se ouvir, num rugido não tanto ameaçador como imponente..
Enfim, as memórias da noite volvida iam-se esbatendo à medida que tomava consciência do novo dia que despontara há algumas horas. O cansaço que não se descolava de si e algum torpor do espírito, sequela de algumas misturas alcoólicas pouco prudentes, aconselhavam a uma manhã calma e repousada, sem grandes agitações, por forma a recuperar dos excessos a que se entregara de boa vontade mas que agora cobravam uma factura a cujo pagamento não se podia furtar.
A praia!... Nem mais, iria até à praia deitar-se nas areias quentes, deixando-se amolecer lentamente sob os eflúvios de um sol de Verão já tardio. Não tinha mesmo nada combinado com quem quer que fosse para esse dia, que antecipadamente reservara para si, para pôr em dia as leituras, ouvir a Diana Krall que lhe haviam emprestado e preparar-se para uma semana que se prenunciava exigente.
A língua de costa para onde habitualmente ia, sempre que precisava desse exercício retemperador era bastante extensa, bastando andar alguns minutos para se isolar dos esparsos grupos que escolhiam o mesmo destino, a cerca de meia hora da capital, pelo que, se se levantasse de imediato, poderia dar o primeiro mergulho ainda antes da hora de maior calor.
Assim acicatada com tais pensamentos, Susana entregou-se à recolha da meia dúzia de coisas julgadas imprescindíveis para sair – carteira com documentos e dinheiro, chaves do carro, toalha, escova, protector solar, telemóvel, leitor de CD, um livro, óculos escuros, uma garrafa de litro e meio de sumo de laranja natural, uma... Não, já chegava, caramba! Parecia que ia fazer um daqueles piqueniques familiares em que as pessoas chegavam à praia exaustas de tantos sacos e utensílios carregarem.
Um breve mas indispensável duche quase frio trouxe-a de volta dos mundos oníricos em que ainda vogava, após o que se atirou para dentro de uma leve peçazinha de roupa de cores suaves, calçou uns ténis de pano cru e, com dois ou três movimentos enérgicos e rotineiros, cofiou o cabelo, encaracolado, que dominou sob um lenço de estilo indiano, ou cigano, não sabia ao certo.
Antes de sair ainda teve tempo para ingerir dois iogurtes, no que consistiu o pequeno almoço, e ligar o atendedor de chamadas, não fosse alguém ligar-lhe e ela não quisesse atender o telemóvel, cujas chamadas estavam redireccionadas para casa.
Foi já com agrado que, saindo de casa, recebeu o embate da luz da manhã, que ainda assim não deixou de a obrigar a colocar os óculos, mesmo antes de entrar para o carro, um MG de ar desportivo mas com um currículo já extenso, se bem que nunca a tivesse deixado ficar mal, na estrada.
Com aquela sensação de ter todo o tempo por sua conta, atravessou diversas ruas e avenidas, dando prazenteiramente a vez num ou noutro cruzamento, não se abespinhando com os semáforos, sempre teimosamente mais tempo no vermelho do que no verde, e em breve atingia a auto-estrada que a levaria através de pequenas povoações e pinhais até ao almejado destino de repouso.
Pelo caminho ainda esteve para parar, junto a um posto de abastecimento, onde um casal, aparentemente estrangeiro, estendia o dedo na sua direcção, na esperança de ver reduzidos os quilómetros que os separavam do litoral algarvio, seu destino mais que provável naquele final de férias pelas exóticas paragens lusitanas.
Contudo desistiu de seguir esse impulso, talvez porque afloraram-lhe à ideia pretensos casos de assaltos, violações e outras barbaridades atribuídas a globe trotters de que teriam sido alvo incautos que, na sua boa fé, lhes haviam dado boleia. Claro que a maioria das histórias era mera ficção, os jovens turistas de pé descalço que se encontram pelas estradas fora pretendem tão-só fazer férias de forma económica, acreditando na boa vontade dos condutores que os hão-de levar até aos destinos pretendidos.
Como fizera o Miguel, o seu irmão mais velho, que nos tempos de juventude palmilhara o asfalto europeu nas suas deambulações enquanto hippie, que o tinham levado a Paris, Amesterdão, Copenhaga, etc.
De qualquer forma, não lhe apetecia entabular as habituais conversas sobre de onde vinham e para onde iam, o que faziam e outras quejandas, além de que os pouco quilómetros que lhes poderia facultar não iriam adiantar muito no périplo alentejano e algarvio daqueles dois, podendo mesmo fazê-los perder, quem sabe, uma corrida directa até aos areais do Sul. Por isso limitou-se a sorrir-lhes e a acenar, enquanto retomava a estrada.
Enquanto conduzia, Susana lembrava-se de alguns episódios pitorescos que Miguel lhe havia contado, dos tempos em que andava à boleia, quer nas estradas europeias quer mesmo em Portugal. Segundo lhe dissera, tempos houve em que o dedo esticado na direcção do tráfego era bastante frequente no nosso país, fosse para se conseguir transporte para o estrangeiro ou mesmo para uma mera ida à praia. Assim acontecia na Praça de Espanha, para as praias da Caparica ou mais para sul, na rotunda do relógio ou junto às antigas portagens de Sacavém, para norte, ou ainda na Marginal, para as praias da linha.
Ela imaginava-se nesses tempos, em que bandos de amantes do sol e da praia amontoavam-se em carros vetustos – ainda sem pranchas, coisa então praticamente desconhecida – propiciando encontros fortuitos em que se conhecia gente diferente e interessante, quando a desconfiança e o receio não campeavam até à paranóia e que, contudo, eram mais seguros do que os actuais, apesar de todas as precauções que se tomam para evitar maus encontros.
Tempos que Miguel recordava com alguma saudade, quando deles falava, de hábitos e rotinas diferentes das de hoje, músicas que actualmente só passam na Rádio Nostalgia, livros e ideias pueris, fatos de banho completos, com bem mais tecido do que agora se usa...
Merda, fato de banho! Não era possível, tinha-se esquecido de o vestir, na pressa de sair de casa. Agindo de alguma forma por instinto, vestira uma simples cueca de algodão, que retirara da gaveta, e como o decote do vestido não era excessivamente liberal aos olhares alheios, nem pensara em procurar um biquini ou uma tangazita. Se mais não fosse, permitir-lhe-ia queimar um pouco os minúsculos triângulos brancos que pareciam tatuar-lhe os peitos, mas assim, sem nada minimamente adequado para exibir sobre o pêlo e permitir-lhe ir à água!...
Estava furiosa consigo própria. Sentia como os padrinhos que no altar verificam ter-se esquecido das alianças ou o viajante que à chegada ao aeroporto, em cima da hora da partida, descobre que o passaporte ficou em casa...
Voltar para trás estava fora de cogitação, perderia a maior parte do tempo na estrada, e quanto a comprar um biquini novo, ainda que demencial nas cores e padrões, num qualquer vendedor ambulante, bom, o facto é que a sua mesada, mesmo aliada ao que obtinha com as explicações, não lhe permitia tais devaneios, que os livros da faculdade este ano tinham sido bastante caros.
Susana embrenhara-se entretanto por uma estrada secundária, afastando-se do itinerário que previamente pretendera seguir até à praia. Manchas de verde ladeavam o asfalto, que passava sob as rodas tão velozmente quanto a sua raiva pelo esquecimento impelia o pé direito sobre o acelerador.
Sem saber ao certo o que fazer, nem por onde seguir, deixou-se assim levar por alguns quilómetros até que a estrada desembocou numa clareira, em que uma placa indicativa assinalava a direcção de um caminho pedonal para uma praia, visível um pouco mais abaixo, de águas azuis translúcidas e um areal vasto e acolhedor, apenas polvilhado de minúsculas manchas coloridas de chapéus de sol e uma parca meia dúzia de banhistas.
Sentiu-se a recuperar o ânimo com aquela visão, que a redimia do seu imperdoável esquecimento do fato de banho, que de outra forma estragaria irreversivelmente aquele dia de praia.
A placa, daquelas de cimento gravadas a tinta negra, já embotada, assegurava-lhe a inesperada solução do seu problema. Nela podia ler-se: ‘Praia do Treco – Reservada a nudistas’!...

Autor: Luís Guimarães
Data: 20/12/04


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