Literatura

ADEUS ÀS ARMAS

"Soldados à Força", de David Lodge

Crítico e divertido, "Soldados à Força" é mais um dos recomendáveis livros de David Lodge e proporciona um olhar mordaz sobre o sistema militar. Uma boa companhia para as férias deste Verão...

Não sendo um dos títulos mais emblemáticos de David Lodge - autor de obras como "O Museu Britânico Ainda Vem Abaixo" ou "A Troca" -, "Soldados à Força" (Ginger, You're Barmy) é, apesar disso, mais um livro recomendável do elogiado autor britânico.

No centro da acção encontram-se dois estudantes universitários, Jonathan Browne, um britânico agnóstico e cauteloso, e Mike Brady, um irlandês católico de temperamento impulsivo.
Colegas de faculdade, os dois jovens tornam-se mais próximos quando são convocados a prestar o serviço militar no mesmo local, desenvolvendo então uma relação de amizade e companheirismo.

Crónica das experiências dos dois amigos nesse novo mundo, "Soldados à Força" apresenta uma perspectiva crítica e atenta acerca da realidade militar e do seu sistema viciado, peripécias que Lodge também viveu e que retrata aqui de forma verosímil e minuciosa.

Parcialmente auto-biográfico - o autor revelou que a dupla de protagonistas não assenta em pessoas que conheceu, mas muitos dos secundários e situações baseiam-se nas suas memórias -, o livro segue sobretudo as experiências de Jonathan, que além de personagem principal é também o narrador.
Obrigado a abdicar do mundo universitário durante algum tempo, o jovem depara-se com um contexto onde a razão e a subtileza se mostram pouco determinantes quando se vê obrigado a aceitar tarefas menores e inúteis.
Já Mike, perante tal cenário humilhante, decide adoptar uma atitude mais proactiva e encetar um plano de revolta, postura que o fará afastar-se cada vez mais do seu colega.

"Soldados à Força" é, à semelhança da maioria das obras de Lodge, um livro escorreito, acessível e lúdico, pontuado por um humor mordaz e credíveis retratos de um quotidiano lacónico.
Não é um título essencial (foi a segunda obra do autor e isso nota-se, e "Artigo 22", de Joseph Heller, é mais ousado na descrição dos absurdos do mundo militar), mas as personagens são suficientemente interessantes e as considerações de Jonathan (ou de Lodge?), embora tenham sido originadas nos anos 50 - período onde decorre a acção - continuam actuais e relevantes. A (re)descobrir…

goncalo_sa@jornalinside.com

Autor: Gonçalo Sá
Data: 27/07/05


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