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Terramoto-desastre em Lisboa há 250 anos
Quando suas majestades ilustríssimas dormiram numa carroça
A efeméride dos 250 anos do terramoto que abalou Lisboa e obrigou à sua reconstrução sob o pulso do Marquês de Pombal levou diferentes editoras a trazer a lume obras sobre o cataclismo.Rui Tavares em "O pequeno livro do grande terramoto" (Tinta da China) arrisca um paralelismo com o tsunami ocorrido em Dezembro passado na Ásia e com o ataque às Torres Gémeas, em Nova Iorque, em 2001. Rui Tavares defende que tanto o tsunami como o ataque às Torres Gémeas "forçaram a humanidade a uma reflexão sobre a textura histórica, a identificação entre o bem e o mal ou as relações entre cultura, religião e realidade".
O mesmo se passou após a hecatombe que arrasou Lisboa, e sobre a qual Voltaire escreveu um poema que a Alêtheia edita, numa tradução de Vasco Graça Moura. O eurodeputado e poeta, distinguido este ano com o Grande Prémio de Romance e Novela e em Junho passado com o Prémio Internacional Diego Valeri pela tradução das "Rimas" de Petrarca, dedicou-se agora à tradução de "Poème sur le desastre de Lisbonne", no qual Voltaire (1694-1778) escreve que "há fogo subterrâneo a engolir Lisboa". Sobre este texto do poeta e filósofo francês, Graça Moura salienta "a importância inegável que ele teve para o debate europeu" e também "a curiosíssima proximidade entre parte da argumentação voltaireana e a discussão realizada entre teólogos e filósofos a propósito do tsunami asiático de fins de 2004 e a questão do mal".
Nesta editora surge editada a correspondência do então Núncio apostólico, Filippo Acciauoli, enviada à Santa Sé e que se encontrava no Arquivo Secreto do Vaticano. Trata-se de um estudo realizado por monsenhor Arnaldo Pinto Saraiva, que assinou trabalhos como "O Presépio barroco português" e a "Bíblia dos Jerónimos", álbuns editados pela Bertarnd e a Franco Maria Ricci. Pinto Saraiva afirma que a correspondência do representante diplomático do Papa em Lisboa "resulta imponente, não só pelo conteúdo e estilo, mas também por proceder e acompanhar todas as outras" narrativas realizadas sobre o desastre que destruiu praticamente toda a capital.
Por outro lado, salienta o investigador português, Acciauoli procura cingir-se aos factos e "não partilha da visão apocalíptica de alguns pregadores" de então, que viam no terramoto "a cólera e a vingança" de Deus. Testemunhos directos do cataclismo surgem numa outra edição da Alêtheia, intitulada "Memórias de uma cidade destruída" onde se coligem os registos dos párocos das igrejas da baixa alfacinha. Trata-se das respostas dos inquéritos pedidos pelo Patriarcado de Lisboa, por ordem de D. José Manuel de Câmara. Lisboa resumia-se, segundo estes relatos a "um monte de pedras", com "incontáveis mortos" e milhares desalojados.
Vários foram os edifícios que desabaram, nomeadamente igrejas cujos párocos tiveram de se estabelecer noutras capelas e ermidas. Uma das maiores igrejas que desabou foi a de Santa Catarina dos Livreiros, apesar da sua magnitude. O Palácio de Belém, refere ainda outro relato, "sofreu muito", mas "Suas Majestades Ilustríssimas e toda a família Real se salvaram no campo e vivem em diversas tendas". O Rei D. José, por exemplo, afirma o Núncio, "dorme numa carroça". Estes três volumes da Alêtheia são ilustrados com gravuras da ipoca, ora de edifícios da cidade, ora procurando retratar o terramoto e o maremoto que se lhe seguiu, quando, a 01 de Novembro de 1755, um "inferno abissal engoliu Lisboa" parafraseando Voltaire. Assinalando também a efeméride, a Editorial Caminho publica uma obra de Henrique Dias da Gama sobre a baixa depois do terramoto, o período da reconstrução sobre o pulso do Marques de Pombal e o projecto de Manuel da Maia e Eugénio dos Santos. "Baixa Pombalina - A Luz Escura do Iluminismo" é o título da obra que constitui um guia de interpretação desta zona da capital portuguesa que a Câmara Municipal quer candidatar a património da humanidade.
Fonte: Lusa
Autor: Luís Guimarães
Data: 31/10/05




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