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Literatura
WOODY ALLEN
PROSA COMPLETA
Prático, incisivo e de uma clareza extrema, Woody Allen, presenteia-nos com uma prosa que não há memória na minha curta existência.Os seus textos descomplexados levaram-me a ver a vida de uma forma diferente e modificaram a minha planificação a longo prazo do meu doutoramento. Também me fizeram questionar a minha ontologia, e mesmo as minhas crenças nas profundas raízes do universo, ou mesmo na realidade e porque não mesmo dizê-lo, em Deus.
Dono de uma eloquência fascinante, Allen, transpõe o real para outra dimensão, e traz à dimensão em que vivemos um outro real que desconheciamos. E isto sim, é que é acima de tudo a sua mais valia. E dentro deste contexto não há que fazer mais juízos de valor, apenas ler, ler, ler, e deixarem a vossa velha vida de lado, depois de descobrirem quem realmente são. Prefiro deixar aqui trechos da sua prosa como acepipes, para vos despertarem a atenção, tudo o resto só mesmo comprando e lendo.
“Esperar que a noite termine está a tornar-se-me cada vez mais difícil. Ontem à noite experimentei a incómoda sensação de que alguns homens tentavam irromper pelo meu quarto dentro para me lavarem a cabeça.”
“O Inspector Ford examinou a nota de resgate. ‘Querida mamã e querido papá, deixem $50,000 num saco debaixo da ponte da Rua Decatur. Se não houver uma ponte na Rua Decatur, por favor, construam uma. Estou a ser bem tratado, dão-me abrigo e boa comida, apesar de a noite passada as amêijoas de lata estarem demasiado cozidas. Mandem depressa o dinheiro, porque se eles não tiverem notícias vossas dentro de alguns dias o homem agora me faz a cama estrangula-me. O vosso filho Kermit. P.S. Isto não é nenhuma brincadeira. Junto uma brincadeira para poderem ver a diferença’.”
“O Snoll Voador – Um lagarto que tem quatrocentos olhos, duzentos para ver ao longe, duzentos para ler. De acordo com a lenda, se um homem olha o snoll directamente na cara, este perde imediatamente o direito de conduzir em Nova Jérsia.”
“A mais recente de todas estas teorias aparece num livro que acabei de ler e onde se procura demonstrar definitivamente que o verdadeiro autor das obras de Shakespeare foi Christopher Marlowe. (...) Ora, ao tentar considerar a teoria acima referida na sua justa perspectiva, a minha primeira pergunta é: se Marlowe escreveu as obras de Shakespeare, quem escreveu as de Marlowe?”
“- Ainda anda à procura de Deus?
- É.
- Um ser Todo-Poderoso? A Grande Unidade, Criador do Universo? A Causa Primeira de Todas as Coisas?
- Exacto.
- Alguém correspondendo a essa descrição acabou de aparecer na morgue. É melhor vir imediatamente para cá.
Era mesmo Ele e, pelo aspecto, tinha sido trabalho de profissional.
- Estava morto quando O trouxeram.
- Onde é que O encontraram?
- Num armazém da Rua Delancey.
- Alguma pista?
- É trabalho de um existencialista. Temos a certeza. “
“No Fabrizio, a marca artística é bem visível na Galinha Desossada à la Parmigiana, de Spinelli. O título é irónico, dado que ele introduz na galinha uns ossinhos suplementares, como que para significar que a vida não deve ser digerida demasiado depressa ou sem cautelas. O constante acto de tirar os ossos da boca e de os colocar na borda do prato dá à refeição uma sonoridade mística. Vem-nos imediatamente à ideia Webern, que parece ressurgir a cada momento na cozinha Spinelli. Robert Craft ao falar de Stravinski, produz uma interessante reflexão sobre a influência de Shoenberg nas saladas de Spinelli e da influência de Spinelli no ‘Concerto em Ré para Cordas’ de Stravinski. Sob esse ângulo, o minestrone é um grande exemplo de atonalidade. Tal como é, misturado com coisas estranhas e bocados de comida, obriga o cliente a fazer ruídos com a boca enquanto sorve. Esses tons estão dispostos segundo um ritmo estabelecido e repetem-se numa estrutura serial. Na primeira noite em que fui ao Fabrizio, dois clientes, um rapaz novo e um homem gordo, estavam a comer a sopa ao mesmo tempo, e a emoção foi tal que receberam uma salva de palmas de pé. Para sobremesa comemos trotoni, o que me faz lembrar a notável frase de Leibniz ‘As mónadas não têm janelas’. Que perspicácia! Os preços no Fabrizio como Hannah Arendt me disse certa vez, são ‘razoáveis sem serem historicamente inevitáveis’. Concordo.”
“Sinto-me atormentado pela dúvida. E se tudo é uma ilusão e nada existe? Se assim é, paguei demasiado dinheiro pelo tapete.”
Editado pela Gradiva e, disponível nas livrarias.
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Autor: Tiago Videira
Data: 11/01/06





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