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ALCIONE - Psicologia



Alcione Scarpin, psicóloga clínica natural de S. Paulo (Brasil), com actividade desenvolvida no seu país (de 1970 a 1984), nos EUA (de 1984 a 1987), e, em Portugal, desde 1987. Passagem por França em 1992. Manteve semanalmente ao longo de dois anos, na RDP/Internacional, a rúbrica «Conversas Terapêuticas». Foi directora da Revista «AS PESSOAS - Educação e Ciências». Participa às terças-feiras nas Manhãs da Baía com o Espaço Psicologia, Rádio Baía.


CONVERSAS TERAPÊUTICAS

Um espaço de diálogo e de reflexão no qual, para além das crónicas que irei escrevendo regularmente sobre temas específicos, procurarei também dar resposta aos principais problemas do foro psicológico que afectam um número cada vez maior de seres humanos neste iniciar tumultuoso do Século XXI.
Os temas até agora abordados foram, entre outros, a Ansiedade, a Intuição, os Sonhos, Individualização, O Amor, Acção e Reacção, Psicoterapia O Poder do Agora e Renovar que despertaram o interesse de vários leitores - em Portugal, Espanha, Brasil - e cujo «Aconselhamento» poderá ser consultado na continuidade desta página.
No que se refere à dinâmica das «Conversas Terapêuticas» é a de que os leitores continuem a apresentar as suas questões, tanto relativamente ao tema em foco, neste caso" Rasgos de Ternura, como sobre todos aqueles que já foram por mim analisados, de forma a ser possível manter um diálogo permanente e interactivo entre nós.

As questões a colocar pelos leitores deverão ser remetidas de forma sucinta para o seguinte E-Mail: alcionescarpin22@gmail.com



Como lidar com o "Stress"
Consultas:
Praça do Chile, em Lisboa
Telemóvel: 914088630

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Rasgos de Ternura

Hoje vamos falar dos estados d'alma que transparecem nas relações humanas.
Quando o bebé começa a esboçar os primeiros sorrisos, estabelece com as pessoas um contacto que proporciona imensa alegria e entusiasmo aos pais.
Da entrega absoluta que uma criança requer nos primeiros tempos de vida, emerge uma das recompensas entre tantas outras que virão: o sorriso do bebé!
É a primeira manifestação do ser social que somos. Ao longo da existência, vamos interagir vezes sem conta com o ambiente. Inúmeras emoções estarão presentes nesta interacção: alegria, tristeza, raiva, inveja, medo, ternura, compaixão...
Se uma explosão de raiva pode gerar um ambiente tenso, uma gargalhada pode descontrair.
Se um empurrão afasta, um abraço aproxima...
Enquanto a raiva provoca conflitos e separações, a bondade reconstrói.
Se o medo bloqueia, a coragem provoca mudanças.
A turbulência das emoções por vezes assustam, mas todas elas fazem parte do Ser que somos e bem conhecidas podem nos ser úteis nas mais diversas situações.
Ainda hoje, falar das emoções parece um tabu: _"Eu sei que é feio mas sinto inveja", "não gosto nada de ter raiva mas admito que..."
A palavra- chave é a aceitação, mas aceitar o quê? Aceitar que somos humanos e quando a aceitação acontece verificamos que as emoções permanecem todas, não as eliminamos. Somente as mantemos nos níveis ideais para sermos nós a usá-las e não sermos usados e dominados por elas.
Esta é a essência da humanidade do Homem

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RENOVAR

Todos os dias somos bombardeados por notícias derrotistas, qual torpedo a atingir a nossa auto-confiança.
De repente, quase que de forma mecânica vai se repetindo: " isto está mal..."
Estas palavras, trazem subjacentes, uma forte componente de negatividade que se aloja na alma de tal forma que todo o corpo acaba por ficar impregnado de mal estar e pessimismo.
A primeira variável a se considerar , é que nós, seres humanos, formamos a sociedade em que vivemos. Se queremos um mundo melhor para nós, nossos filhos e netos, não podemos cruzar os braços diante dos desafios, por mais complexos que possam parecer.
Nós vivemos num tempo em que "renovar" pode ser uma palavra chave.
E como renovar o repertório das saídas e soluções para os problemas e dificuldades com os quais nos deparamos todos os dias?
Idéias frescas e inovadoras podem paulatinamente alterar um padrão mental negativo.
É fundamental alimentar a mente com bons pensamentos e o coração com bons sentimentos. Através de um processo de substituição, toda pessoa pode melhorar a sua qualidade de vida.
Olhar de frente para os seus problemas e verificar que você é maior que todos eles juntos.
Pensar no que se pode fazer em cada situação ao invés de reclamar.
Viver um dia de cada vez, como na caça ao tesouro em que cada etapa vencida aponta para a etapa a vencer...
Deixar o fardo do passado na base da montanha; levar só o estritamente necessário.
Compreender que a ansiedade só é útil em certa medida, em excesso pode bloquear os seus movimentos e a sua inteligência.
Deixar fluir o amor na sua vida pois, o amor dissolve o medo e aguça a imaginação.

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O PODER DO AGORA

Eckhart Tolle, autor do "best seller" O Poder do Agora, nasceu na Alemanha em 1948. Licenciou-se pela Universidade de Londres e em seguida trabalhou como investigador na Universidade de Cambridge. Aos 29 anos, uma profunda transformação espiritual mudou radicalmente o rumo da sua vida. Nos anos que se seguiram dedicou-se a compreender, integrar e aprofundar essa transformação que marcou o início de uma intensa caminhada interior. Vive actualmente no Canadá e realiza palestras e workshops sobre a consciência do Agora.
Como psicóloga que sou considero o seu trabalho altamente terapêutico pois promove a saúde mental e o desenvolvimento pessoal e espiritual.
A resistência ao presente manifesta-se por uma fuga para o passado através de recordações carregadas de emoções « corpo de dor» ou ao futuro com projecções geralmente negativas (pessimismo). O estar fixado no passado gera angústia, culpa, tristeza, remorso, nostalgia... Querer antecipar o futuro gera ansiedade, medo, pânico e bloqueios.
O Agora é sempre o momento real que se renova a cada instante. Olhar e viver o presente é experimentar a sanidade, é funcionar pelo fluxo natural das coisas, é activar o programa dos recursos internos para fazer face a qualquer situação.
Muito do sofrimento humano é desnecessário pois é criado e sustentado por emoções e pelo pensamento condicionado às mensagens subliminares que assumimos como sendo nossas, mas que não fazem parte do nosso "ser" e provocam comportamentos disfuncionais.
Para facilitar a compreensão da obra de Eckhart Tolle e contribuir para o despertar de um novo estado de consciência no nosso Planeta, vou realizar no próximo dia 21 de Março de 2009, pelas 21h30 a palestra Consciência, o caminho para sair da dor, na Galeria Matos Ferreira - Rua Luz Soriano nº18, em Lisboa. Entrada livre.

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Psicoterapia

Apesar de haver uma enorme evolução no campo do tratamento das dificuldades de ordem emocional, a psicoterapia continua a ser uma prática pouco usual na sociedade portuguesa.
O psicólogo é procurado , mais num sentido de urgência quando uma crise psicológica se instala; para aliviar a dor da alma, diminuir a angústia, acalmar a ansiedade. Sabe muito bem encontrar quem nos oiça, com entendimento, nestes momentos de aflição e desespero quando tudo parece desmoronar à nossa volta. Nestas situações, a intervenção de um psicólogo clínico pode contribuir em primeiro lugar para evitar o agravamento do problema e a seguir apontar soluções e dar esperança.
Um pressuposto básico em todo processo psicoterapêutico é que o Ser humano que nos procura, sejam quais forem as circunstâncias, é sempre maior que a dificuldade que enfrenta. Embora pareça uma verdade simples, as pessoas não têm noção do profundo significado da mesma.
Infelizmente ainda há muita ignorância sobre o papel dos psicólogos na comunidade, pois os consultórios de psicologia podem funcionar como verdadeiros "Oasis" no deserto das relações humanas actuais tão despojadas de "ombro" de "aconchego".
Talvez por essa razão, muitas pessoas têm a idéia de que fazer psicoterapia é ter alguém com quem falar, o que não deixa de ser verdade até um certo ponto, mas é muito mais abrangente pois vai munir o indivíduo com as ferramentas necessárias à sua sobrevivência enquanto pessoa, usufruindo plenamente das suas capacidades. Um processo de terapia bem conduzido, liberta, ensina a pescar ao invés de simplesmente oferecer o peixe, como sabiamente propõe o provérbio chinês.
Quando alguém nos procura é porque está a sofrer e após algumas sessões de tratamento sente-se aliviada e pode até pensar que está curada. Mas é nesse momento que verdadeiramente começa o nosso trabalho na procura das causas internas, psicológicas que bloqueiam a percepção, o raciocínio, o bom senso, a capacidade intelectual, enfim todas as funções mentais que contribuem para o equilíbrio emocional e o bom fucionamento do indivíduo: no emprego, na família, na vida social e afectiva.
O ser humano é um todo complexo em interacção permanente com o meio externo, por isso um psicólogo experiente sabe que deve ouvir mais do que falar pois as vivências dos nossos pacientes são as pedras preciosas com as quais ele próprio vai esculpir uma personalidade mais sólida, mais rica, mais valiosa para si mesmo.

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Individualização

Para o psicanalista C. G. Jung, nascido na Suiça em 1875, todas as pessoas passam por um processo de individualização, entretanto, as que têm consciência do mesmo podem considerar-se afortunadas. Por individualidade entende-se a nossa singularidade ùltima, incomparável, que faz de cada habitante do Planeta, um SER único.
Na harmonia da Natureza, cada vegetal ou mineral, cada animal tem a sua função, a sua utilidade. Como no dizer do famoso químico francês Lavoisier: "na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma..."
A consciência da própria identidade coloca o ser humano numa comunhão indissolúvel com o Mundo, numa sintonia de funcionamento e criatividade.
O mais interessante neste crescer constante é que, para se tornar único e fazer brilhar a sua singularidade, o Homem precisa de todos os outros: familiares, amigos ou desconhecidos e mesmo daqueles que já não vivem.
Ninguem é auto- suficiente, de forma que nos completamos, nos consolamos e nos ajudamos mutuamente e assim crescemos todos os dias como indivíduos e como grupo.
Muitas vezes ponho-me a pensar nessa ventura maravilhosa que é viver e compreender o mecanismo da existência. Olhar o mundo com os "olhos de ver" e descobrir sempre mais...
O ano de 2008 começou com toda a sua pujança nas diferentes partes do Globo e podemos planear o desenrolar de muitas aventuras ao estimular a nossa estrutura mental com bons pensamentos, muita alegria e entusiasmo. A paz que tanto almejamos começa no nosso íntimo, contagia o nosso semelhante e transforma o ambiente em que vivemos.
Podemos decidir agora, por vivências de trabalho e realização ou por permanecer numa atitude de cristalização de "vícios" psicológicos, a fomentar guerras e conflitos.
No primeiro dia do ano fiz logo a minha escolha no sentido de contribuir com o meu saber e o meu sentir em prol de uma Humanidade mais fraterna.
Com esta crónica venho saudar todos os meus leitores e desejar que a felicidade seja sempre a meta de cada um em particular e de todos em geral.

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Acção e Reacção

Por vezes perdidas na memória dos tempos estão as nossas acções, as nossas escolhas, as decisões pensadas ou precipitadas. Os frutos que hoje colhemos foram semeados em campos distantes e nem sempre temos a noção exacta de que forjamos grande parte das nossas experiências tanto para o bem como para o mal.
A criança começa a construir o seu futuro na submissão e respeito aos seus progenitores, aos seus avós e aos seus professores. Cada vez constato com maior acuidade, a necessidade que a criança tem de disciplina.
O problema de cada ser humano em particular e da sociedade em geral, é de natureza mental; modifiquem as próprias idéias a respeito de quase tudo e em pouco tempo teremos uma Humanidade renovada.
A disciplina, por exemplo, é um conceito degastado e deturpado. É comum confundir disciplina com repressão e autoridade com autoritarismo. Muitos pais e professores têm receio de fazer uso da sua autoridade enquanto adultos responsáveis pelo desenvolvimento saudável de crianças e jovens.
A liberdade é no fundo um exercício de contenção e expansão: saber se conter quando necessário e se expandir sempre que possível. A própria criatividade tem muito a ver com a disciplina da atenção em determinado assunto, arte ou actividade de qualquer natureza.
Basta entrar no Metropolitano de L isboa para se verificar que alguns dos seus usuários agem sem regras definidas, com os pés em cima dos bancos, jogando restos de comida e lixo para o chão, fazendo algazarras etc.... É intraduzível a angústia que vislumbro em jovens e adultos com as emoções desordenadas. São almas petrificadas na rebelião e indisciplina e se do exterior não há uma chamada de atenção no sentido de contê-los, um pequeno grupo pode causar uma grande confusão.
Nas escolas, alunos e até alguns pais chegam a agredir os professores e assim semeia-se violência onde se deveria cultivar o amor. Em casa a situação nem sempre é melhor e ouvimos inúmeros relatos de atitudes agressivas dos filhos contra os próprios pais.
Nós adultos, temos que pensar onde e quando deixamos germinar a sementes de tanta licenciosidade. Todos nós somos coniventes com o que se passa ao nosso redor se, por omissão, nos fechamos em nosso confortável e pequeno mundo.

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O AMOR

O amor é o sentimento por excelência e está na base de toda estrutura psicológica saudável.
Amar a si mesmo é a principal necessidade do ser humano e amar ao próximo é a consequência directa dessa atitude.
Para abordar algumas questões ligadas a este tema recorro ao conceituado psicanalista alemão, naturalizado americano, Erich Fromm, autor do livro "A Arte de Amar".
O autor nos alerta que "o amor não é um sentimento a que qualquer um possa se entregar, independentemente do seu grau de maturidade...é uma atitude, uma orientação do carácter, que determina a relação de uma pessoa com o mundo em geral e não apenas com o "objecto" do amor..."
O primeiro aspecto a considerar nessa matéria é que o amor próprio(auto-estima) é o ponto de partida para viver outras fomas de amor.
Só dá Amor aquele que o possui. Para amar o próximo é preciso amar a si mesmo.
O Amor é uma energia que se expande na medida em que é vivido na forma de dar e receber. Assim como as actividades físicas e intelectuais são passíveis de treino para se desenvolver, a actividade afectiva do ser humano pode e deve ser exercitada para um crescimento harmonioso do Homem e da Sociedade.
Uma pessoa que queira avançar em termos afectivos deve começar a olhar para si de maneira terna e carinhosa, cuidar do seu corpo que é a morada da sua alma. A sua casa deve ser limpa e bem cuidada para sentir-se bem, dentro dela.Para amar a si mesma uma pessoa deve trabalhar muito mas também se proporcionar momentos de lazer e de crescimento cultural e espiritual.
Érich Fromm fala-nos de diversas formas de amor: filial, materno, paterno, romântico, erótico, fraterno, religioso ,místico, etc...São várias dimensões e expressoões do mesmo Amor que emana do interior de cada ser humano.Por isso é preciso fazer silêncio para escutar a voz que vem de dentro do coração.
Com esses cuidados você vai tornar-se uma pessoa melhor pois enquanto as emoções negativas aprisionam e fazem sofrer, o amor liberta, revigora e dá saúde porque é a fonte de sanidade.

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A «RESILIÊNCIA» DE NATASCHA
Em Março de 1998, a austríaca Natascha Kampusch, uma menina de 10 anos, bonita, forte, cheia de vida, viu a sua existência alterar-se completamente ao ser raptada a caminho da escola por um adulto de 36 anos (Wolfgang Priklopil), tendo sido mantida em cativeiro por oito anos (os primeiros seis meses num cubículo), até que, no dia 23 de Agosto passado, conseguiu escapar-se ao seu sequestrador.
Actualmente, com a idade de 18 anos, Natascha emocionou a opinião pública mundial com a sua história, contada durante uma entrevista exclusiva que concedeu à televisão estatal do seu país.
A jovem revelou que, desde o primeiro momento em que foi raptada, sentiu que era mais forte do que o seu algoz. Na altura não experimentou medo porque Wolfgang lhe garantira que os seus pais iriam pagar o resgate e que depois poderia voltar para casa (no mesmo dia ou no dia seguinte). «Acreditava - referiu - que ele me ia matar de qualquer forma, por isso pensei que o melhor era utilizar os últimos minutos ou horas da minha vida para fugir ou dialogar com ele».
Desde esse momento, Natascha demonstrou ser uma garota firme, com uma personalidade bem estruturada (certamente fruto do amor que os seus pais lhe dedicavam), pelo que numa situação-limite como a que estava a viver era capaz de activar os seus mecanismos internos através de processos intuitivos de respostas, a fim de assegurar em primeiro lugar a sua sobrevivência física (e depois a sua sobrevivência mental e psicológica dentro do possível, e mais tarde a sua libertação).
Na entrevista à televisão austríaca, Natascha assegurou que nunca se sentiu só, porque o seu coração estava com a família e centrava-se em recordações felizes.
Na última parte do sequestro, Wolfgang já saia à rua com Natascha, mas ameaçava-a de morte se ela tentasse pedir a ajuda de alguém, pelo que não podia arriscar. De acordo com relatos dos vizinhos, nessas ocasiões Natascha acenava e sorria para eles, como se estivesse feliz. Acenar, sorrir, mostrar descontracção, foram estratégias muito bem concebidas para garantir que essas saídas voltariam a acontecer.
Natascha foi resiliente, ou seja utilizou todas as possibilidades disponíveis, em cada momento da sua vida em cativeiro, para crescer em inteligência. Apesar de ter consciência do que poderia estar a perder concentrou-se concretamente em usufruir o que tinha disponível para continuar o seu desenvolvimento de tal forma e com tanto empenho que Wolfgang quase passou de sequestrador a prisioneiro de si mesmo. Uma espécie de guarda prisional sem direito a folgas, férias ou a um sono tranquilo.
Quando escapou ao seu raptor, Natascha concretizou o desejo de liberdade sempre acalentado no seu íntimo. E, mesmo que tendo já desenvolvido um certo «afecto» por Wolfgang, de ter crescido culturalmente com ele e percebido as suas fragilidades, nem assim abdicou do seu direito inalienável à liberdade.
«Eu era mais forte do que ele», declarou com ênfase Natascha na entrevista televisiva. Por isso mesmo ela sobreviveu a oito anos de um penoso cativeiro. Ele não resistiu, suicidando-se, perante o desmoronar das suas fantasias e da imagem que tentava passar para o exterior e mesmo para Natascha,
Porque ele era um mentiroso compulsivo que construíu falsos castelos no ar e passou a habitá-los de forma doentia, à medida que a sua «presa» crescia em força, beleza e sabedoria.

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UMA SELECÇÃO DE RIJOS LUTADORES
Após cerca de um mês e meio de alta competição, onde participaram equipas de 32 países representando todos os continentes, a Selecção Portuguesa de Futebol conquistou um honroso, e para muitos surpreendente, 4º lugar. O professor Agostinho da Silva no seu livro «Considerações e Outros Textos» (edição Assírio & Alvim, 1988) escreveu que «o bom lutador deseja que o combatam os mais rijos lutadores». E como que a perscrutar a alma do grande pensador e académico português, o seleccionador nacional, Luis Felipe Scolari, afirmou no final do encontro com a Alemanha (derrota por 3 a 1, para a atribuição de um lugar no pódio): «Perdemos com uma excelente equipa, sem contestação». E o capitão Luis Figo, quase em simultâneo, ao anunciar a sua despedida do onze nacional: «Temos que ter consciência de que demos o nosso melhor, por Portugal. Os portugueses têm de ficar orgulhosos».
De entre todos os desportos, o futebol é, sem dúvida, aquele que mais inflama multidões em todos os recantos do planeta Terra, talvez por ser um jogo em grupo que envolve muita gente na sua planificação e divulgação, mas sobretudo porque dada a sua simplicidade (uma bola ainda que rudimentar e as traseiras de um prédo degradado são suficientes para a sua prática), permite a sua compreensão desde a infância aos futuros adeptos e estrelas de primeira grandeza, oriundos dos mais variados estratos sociais, sem distinção de idade ou de sexo, entre ricos e pobres, letrados e analfabetos, operários e quadros superiores, governantes e governados.
Neste contexto, uma partida de futebol, principalmente tendo como montra uma grande competição mediática, como o foi este Campeonato do Mundo, constitui, por isso, um fenómeno do máximo interesse para uma análise psico-social do tempo em que vivemos, sendo cada uma das equipas, e as suas ambições, vitórias ou frustações, o reflexo da história passada ou actual de cada um desses países.
Neste contexto de múltiplas paixões e interesses, os jogadores, com ascendências e percursos de carreira bem diferenciados, surgem como os porta-estandarte das aspirações de milhões de seres humanos que acompanham as suas vitórias ou desaires, algrias ou tristezas, como se elas fossem também as suas.
Não representando uma peça fundamental para a auto-confiança de um povo, nem para o aproveitamento dos demagogos, as vitórias desportivas podem, no entanto, ser fundamentais para o aumento da auto-estima dos habitantes de uma determinada nação, e nesse sentido há que aplaudir a postura desportiva e ética de Scolari, que, sem confundir patriotismo saudável com fanatismo étnico ou selvagem, soube construir uma equipa coesa, disciplinada, fraterna, com espírito de vencedora e de olhos virados para o futuro, preparada para «combater os mais rijos lutadores».

ACONSELHAMENTO

Pergunta (Mónica Freitas, Sintra) - Tenho 62 anos, sou viúva, os meus dois filhos residem longe, quase que não os vejo, pelo que vivo praticamente só de recordações do passado. Acontece que na sua crónica anterior, a Drª Alcione refere que nestas situações é importante o acompanhamento de um psicólogo ou de um psiquiatra de forma a libertarmo-nos do peso excessivo dessas recordações. Será que no meu caso se eu consultar um desses especialistas ainda poderei voltar a ser feliz?

Alcione Scarpin - Parece-me que a prezada leitora, mais do que viver de recordações vive agarrada ao passado e essa atitude é muito pouco saudável porque impede-a de desfrutar o presente em plenitude. Numa sessão de psicoterapia as recordações são importantes para a pessoa aprender com o que foi útil na sua vida passada e libertar-se das experiências negativas, contribuindo assim para um futuro mais feliz.

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O LEGADO CIENTÍFICO DE FREUD

No ano em que se comemora século e meio do nascimento de Sigmund Freud, e em que rios de tinta são escritos sobre o criador da Psicanálise (descida profunda aos subterrâneos da nossa «alma»), não podemos deixar de falar neste investigador e batalhador incansável, comparado em grandeza científica a Copérnico, Galileu, Charles Darwin, Pasteur, Madame Curie ou Einstein, pelo seu enorme contributo em prol da evolução da humanidade.
O autor da «Interpretação dos Sonhos», entre outras obras fundamentais, nasceu a 6 de Maio de 1856, em Freiberg, na Morávia - antigo Império Austro-Húngaro, na actual República Checa - mas ainda criança deslocou-se com a sua família para Viena, cidade na qual acabou por residir quase toda a sua longa vida, até que no advento da Segunda Guerra Mundial se exilou em Londres, onde veio a falecer a 23 de Setembro de 1939,
Formado em Medicina, Freud especializou-se em Neurologia e juntamente com Joseph Breuer, figura-chave na sua carreira, desenvolveu o método catártico para tratamento da histeria, doença psíquica acompanhada de alterações somáticas ou orgânicas, muito comum naquela época.
Na actualidade, o conceito Catarse é amplamente usado, sempre que se pretende expressar a forma de «deitar cá para fora» acontecimentos e factos traumatizantes, arrelias, frustações ou ideias esquecidas nos recônditos da nossa personalidade.
Numa sociedade impregnada de «silêncios barulhentos», de risos tristes ou de lágrimas de felicidade, num turbilhão de emoções que nos assolam, nem sempre compreendidas, torna-se necessário parar e fazer um balanço, em situações de crise latente, como por exemplo em casos de pânico, da morte de um ente querido, de problemas com os filhos ou com os pais.
E é nessas alturas que a ajuda de um psicólogo ou de um psicanalista se pode tornar fundamental, dado permitir deitarmo-nos de forma relaxada num divã, falarmos e sermos ouvidos, deixarmos fluir livremente pensamentos e recordações, vermos e revermos o «filme» da nossa existência, onde cada um de nós é sempre o actor principal, fazermos uma análise crítica sobre os pais, os irmãos, os filhos, sem o pavor de lhes perdermos o respeito e o amor. Falarmos do emprego, dos chefes, dos colegas, sem o receio de represálias, de prejudicarmos amizades ou de colocarmos em risco o nosso posto de trabalho.
E, isto, porque no quotidiano agimos escudados nas nossas defesas, tantas vezes necessárias para a sobrevivência em sociedade. Mas no ambiente aconchegante de um consultório conseguimos superar muitos dos nossos medos e sermos nós próprios.
Esse foi o maravilhoso legado que Freud nos deixou, ou seja a possibilidade de se trabalhar a mente humana num projecto interactivo, onde a colaboração do paciente é essencial para que se possa chegar à cura de certas doenças, à solução de conflitos, à superação de dificuldades diversas, libertando-nos da angústia e controlando-nos a ansiedade.

ACONSELHAMENTO

Pergunta (Ana Sofia, Coimbra) - Deduzi pela sua crónica anterior sobre a responsabilidade dos pais na «aculturação» dos filhos, que o desenvolvimento da criança tem a ver com o ambiente familiar em que é criada. Nesse sentido, a Drª Alcione considera o ser humano como um produto do meio em que vive?

Alcione Scarpin - Em minha opinião. cada ser humano tem características próprias, não existindo duas pessoas absolutamente iguais, mesmo entre criaturas gémeas, em que o seu repositório genético é idêntico.
Mas, independentemente destas característas inatas, cada ser humano é também fruto do meio em que vive, ou seja do tipo de motivações pessoais, ou outras, que lhe são insufladas, sobretudo durante a infância e adolescência, às quais irá depois juntando as que lhe são próprias, como por exemplo a persistência, ou não, ao trabalho, o apego, ou não, à terra onde se nasceu, e múltiplas fracções de personalidade, que marcam a diferença de cada um em termos do desenvolvimento humano.

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A «ACULTURAÇÃO» DOS FILHOS

É mais do que legítima a aspiração dos pais desejarem o melhor do Mundo para os seus filhos, mas como as crianças são, por norma, influenciadas por aquilo que vêm fazer em casa, se nesse espaço iniciático não existirem hábitos de leitura, dificilmente eles trilharão esse caminho no futuro.
Há pais que se esforçam até ao limite das suas capacidades económicas para que os seus filhos tirem um curso superior, só que muito raramente levam um jornal ou um livro para casa, não frequentam museus ou bibliotecas com a família e quando sintonizam a televisão é para visionarem somente programas desportivos ou de puro entretenimento, alguns deles de péssima qualidade.
Muitas das crianças e adolescentes, com problemas de aprendizagem nas escolas e notas de baixo nível, cujos pais os trazem para as minhas consultas de psicoterapia, confessam que em suas casas não são motivados para a leitura, que estudam muito pouco, sendo de concluir que essa desmotivação está quase sempre directamente ligada ao desinteresse cultural dos seus progenitores, a quem nunca viram empenhados em aumentar os seus próprios conhecimentos.
Um curso superior não se consegue apenas por um «passe de mágica», ou seja porque os pais que já alcançaram uma certa estabilidde económica desejam atingir através dos filhos a concretização de um sonho que ambicionavam para si, e que jamais realizaram, devido a múltiplos factores.
Porque para que esse curso aconteça, não basta o dinheiro que se investe na escola estatal, ou, então, por facilitismo, no colégio particular ou na universidade privada, sendo necessário que os pais se esforcem por desenvolver os seus hábitos de leitura e a sua cultura geral, de forma a estarem preparados para acompanhar os filhos ao longo do seu percurso académico.
Pois caso contrário, essas crianças dificilmente atingirão a tão sonhada licenciatura, ao serem educadas num ambiente «aculturado», sem ideias nem motivação.

ACONSELHAMENTO

Pergunta (Jerónimo Serra, Santarém) -Ainda bastante jovem habituei-me a ouvir, e a admirar, o Professor Agostinho da Silva, citado na sua crónica anterior, no programa da RTP «Conversas Vadias». mas confesso que conheço mal a sua obra escrita o que gostava de fazer. Poder-me-ia dar algumas indicações nesse sentido?

Alcione Scarpin - A obra escrita do Professor Agostinho da Silva é muito rica e variada, desde biografias de figuras históricas, filosóficas, musicais e literárias que ele adaptou numa linguagem acessível, com uma componente didáctica muito forte, até ensaios e poesia, passando por algumas entrevistas que foi concedendo na fase final da sua vida, entre as quais já referi as assinadas pelo jornalista Víctor Mendanha, a que acrescentarei as da autoria da também jornalista Antónia de Sousa. Felizmente que essas obras, quase todas já esgotadas, estão agora a ser reeditadas, podendo ser adquiridas nas boas livrarias.

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TEMAS JÁ ABORDADOS

RECORDANDO AGOSTINHO DA SILVA

Há precisamente 100 anos, a 13 de Fevereiro de 1906, na cidade do Porto, nascia Agostinho da Silva. Professor universitário, filósofo, escritor e sobretudo um extraordinário comunicador, passou parte da sua infância em Barca de Alva, junto ao Rio Douro, numa paisagem geográfica que muito marcou a sua forte personalidade, virada para a reflexão e para a descoberta dos mistérios fascinantes da existência.
Após exilar-se no Brasil, onde viveu ao longo de décadas, ali fundou várias universidades e diversos centros de divulgação cultural, para além de ter deixado numerosa descendência e as sementes marcantes do seu vasto e prolífero saber.
Regressado a Portugal após o 25 de Abril de 1974, fixou-se em Lisboa, passando a ser conhecido do grande público, já na década de 80, principalmente através do programa televisivo «Conversas Vadias» e da republicação de parte da sua vasta obra.
Das pessoas, entre as quais tenho o orgulho de me incluir, que tiveram oprivilégio de conviver em privado com uma tão sedutora personalidade, considero de plena justiça destacar o jornalista e escritor Victor Mendanha que no seu livro «Conversas com Agostinho da Silva» (já com cinco edições, chanceladas pela «Pergaminho», a primeira das quais em 1994), insere o seguinte excerto que reputo de fundamental para a compreensão da mensagem expressa pelo ilustre pensador: «A oposição traz concórdia e da discórdia nasce uma bela harmonia. Os despertos têm um mundo em comum, enquanto os adormecidos cada um possui o seu próprio mundo privado».
E, isto, porque em nosso entender, o pensamento está entre as funções mais elevadas do ser humano. Dado que, conforme nos ensinou o Professor Agostinho da Silva, pensar é ter consciência desse próprio pensar. E transmitir o que pensamos, através da palavra, escrita ou falada, faz parte da nossa essência.
Nesse sentido, aqui deixamos ao Professor Agostinho da Silva, na data dos 100 anos do seu aniversário, a nossa justa e singela homenagem, com um apelo aos leitores de todas as idades, para que leiam e divulguem este pensador invulgar, autor de uma obra de profunda e rara beleza, cada vez mais actual à medida que o tempo passa.

ACONSELHAMENTO

Pergunta (Fernanda Matias, Lisboa) - Há cerca de seis meses que ando com uma depressão, com algumas crises de pânico, e tenho sido acompanhada pelo meu médico de família, mas gostaria de saber a opinião da Drª Alcione de como a psicoterapia me poderia ajudar a resolver o meu problema.

Alcione Scarpin - Todo o processo de psicoterapia quando conduzido por profissionais competentes contribui para a resolução de conflitos internos que estão subjacentes aos estados depressivos, e a que muitas vezes aparecem associadas as crises de pânico (tema da minha crónica anterior). Esta terapêutica para além de capacitar as pessoas afectadas para fazerem descobertas sobre elas mesmas, vai contribuir para uma tomada de consciência sobre as suas próprias vidas, encontrando caminhos e talentos até então inexplorados, e levando-as a encetarem novos percursos nas suas existências.

AS CRISES DE PÂNICO

As crises de Pânico são cada vez mais frequentes na sociedade actual. Jovens produtivos e profissionais com carreiras promissoras vêem-se de um momento para o outro atormentados com sintomas variados, tais como: palpitações, náuseas, dificulddes na respiração, pensamentos confusos e alterados, calafrios e até sensação de morte iminente.
Tudo reacções que, aos poucos, vão minando a sua auto-confiança e limitando o seu quotidiano, a nível profissional, social e lúdico (medo de ir a espectáculos em pavilhões, praias ou estádios superlotados ou de andar no metro, de avião, de barco ou até mesmo no próprio carro em estradas com muito trânsito).
As crises de Pânico estão ligadas a atitudes interiores do indivíduo, com fortes cargas de ansiedade e de angústia, e com um desejo exagerado de perfeição em tudo o que se faz, associado a um alto grau de exigência para consigo e para com os outros e à necessidade de ter tudo sob controle.
Estas crises podem estar ou não ligadas a experiências dolorosas já anteriormente sentidas, até mesmo durante a vida intra-uterina (período de gestação).
Assim, o passado é importante para que a pessoa viva melhor o seu presente. O conhecimento afectivo de determinada situação liberta. Por exemplo, uma separação, uma desilusão, a morte de um ente querido, são tudo situações anormais que podem, todavia, acontecer ao longo da existência de quase toda a gente. O que sucede é que a maioria das pessoas racionalizam os acontecimentos, mesmo os mais dolorosos, nas suas vidas, enquanto outras, não os digerem, não os sentem, não sofrem com eles, e, portanto, não se libertam.
Os sintomas físicos de Pânico aparecem, por norma, subitamente, dando origem a quadros psíquicos incapacitantes, se não houver, em tempo, um tratamento adequado.
Nessas situações o tratamento deve ser duplo, do foro psiquiátrico de forma a restabelecer o equilíbrio bioquímico a nível cerebral e atenuar os sintomas físicos, e apoio psicológico para superar as dificuldades, conduzindo à descarga de tensões internas, através do diálogo e da reflexão.

ACONSELHAMENTO

Pergunta (Maria Augusta, Oeiras) - Na sua última crónica, a Drª Alcione fala sobre a educação de adultos. Mas será que para uma pessoa já com uma certa idade vale a pena voltar aos bancos escolares?
Alcione Scarpin - Respondendo à sua pergunta começarei por citar com alguma liberdade Fernando Pessoa quando ele diz que «tudo vale a pena, se (ou quando) a alma não é pequena...». E quando se trata da educação continuada do ser humano, tudo vale a pena, dando assim forma a um conceito actualmente bastante difundido que é o da educação ao longo da vida, através de recursos académicos para todas as idades (dos oito aos oitenta), contribuindo assim para o combate ao comodismo e a ideias felizmente já ultrapassadas, de que a escola é só para os mais novos.

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A ESCOLA E O CIVISMO

A Escola como espaço de aprendizagem e formação para crianças, jovens e muitos adultos que primam em conduzir e desenvolver os seus talentos e o seu potencial intelectual deve preocupar-se cada vez mais com a educação cívica e ética dos alunos que a frequentam.
Em entrevista publicada recentemente no agora suspenso matutino lisboeta «A Capital», o ex-futebolista internacional Paulo Sousa, actual assessor de Luís Felipe Scolari na selecção portuguesa, recordou que quando iniciou a sua actividade desportiva no quase anónimo Clube dos Repesenses, no distrito de Viseu, não estava nos seus planos vir a ser futebolista profissional, pois o que ele sonhava mesmo era tornar-se professor primário. E explicou porquê: «Tudo por causa da minha professora que era uma líder natural. Admirava-a tanto, pela forma como se relacionava com os seus alunos, que, por vezes, pensava que queria ser como ela. Por isso, enquanto muitas crianças tinham um ídolo no futebol e queriam seguir-lhe as pisadas, eu não tinha. O meu ídolo era a minha professora primária.
Neste exemplo de Paulo Sousa pode ver-se o reflexo da Escola na formação dos alunos para a sua integração futura, positiva ou negativa, na sociedade e a sua importância como espaço iniciático para a vida, através das brincadeiras, do desporto, da alegria e da solidariedade.
Daí a necessidade de existirem professores motivados e vocacionados para esta difícil profissão, possuidores de uma sólida formação moral, associada a uma bem estruturada preparação académica.
Numa sociedade onde os agregados familiares têm cada vez menos filhos, e menos tempo disponível, a Escola passou a ocupar o espaço privilegiado, e quase exclusivo, em que as crianças, sem irmãos ou vizinhos da mesma idade por perto para brincar, têm possibilidade de fazer a aprendizagem das regras de convivência social.
Do mesmo modo, muitas crianças com dificuldades específicas nas áreas da personalidade e do desenvolvimento encontram na chamada Escola Inclusiva, uma oportunidade única de crescerem com referências positivas que as irão acompanhar para o resto da sua existência.
E se na infância a maioria das crianças gostam da Escola, e guardam dela boas recordações, talvez porque na fase da Primária esta seja mais fraterna e os professores mais disponíveis e próximos, na adolescência muitas delas começam a faltar ou a desinteressar-se das aulas, em parte devido a uma certa dose de rebeldia associada à idade, mas também porque a componente lúdica se perdeu e o ensino com tantas matérias acumuladas se torne repetitivo e enfadonho.
Já os dultos quando regressam aos bancos da Escola recuperam muito da infância e da juventude perdidas, envolvendo-se de forma empenhada e radiosa nos afazeres académicos, apesar dos mesmos se processarem após um dia árduo de trabalho e de muitos deles terem família constituída.
O saber não ocupa lugar, mas para que a sua assimilação se faça de forma gradual e sustentável é necessário que os professores gostem da sua profissão e que o sonho seja apelativo e ministrado com alegria.

ACONSELHAMENTO

Pergunta (Josefina Silva, Coimbra) - Li com bastante interesse a sua crónica anterior centrada nas figuras de Cesário Verde e Luís de Camões, na qual se referia aos efeitos salutares da poesia contra a solidão e alguns sintomas depressivos. Acontece que eu sempre gostei muito de ler poesia, sobretudo Florbela Espanca, Fernando Pessoa e António Nobre, entre os mais antigos, e Herberto Helder e Natália Correia nos mais modernos, mas sinto que a maior parte da poética portuguesa é muito intimista e magoada. Ou será que existe outra poesia mais positiva e alegre e eu é que sou uma pessoa deprimida e só escolho autores com uma poética opressiva e tristonha?
Alcione Scarpin - Como a prezada leitora aparenta ter uma personalidade algo depressiva é natural que tenda a procurar um género de poesia que esteja mais de acordo com a sua maneira de ser. Aconselhava-a por isso a alterar um pouco, e de forma progressiva, essa postura, tentando ler outros poetas com uma perspectiva mais positiva e «sonhadora» da vida (estou a lembrar-me, por exemplo, de António Gedeão e de Sophia de Mello Breyner Andersen). No entanto, mesmo nesses autores a que se refere poderá encontrar poemas de esperança com algumas estrofes alegres e redentoras. Porque é preciso não esquecer que a verdadeira poesia expressa diferentes emoções e sentimentos e tentar reconhecê-los constitui um exercício fascinante.

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A POESIA E AS EMOÇÕES

E evoco, então, as crónicas navais:
Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado!
Luta Camões no Sul, salvando um livro a nado!
Singram soberbas naus que eu não verei jamais!

Cesário Verde, in «Sentimento Dum Ocidental»

Nesta crónica achei interessante evocar a memória do genial autor de «Os Lusíadas», através desta sugestiva quadra de Cesário Verde, também ele um dos grandes vates da língua portuguesa, muito ligado às coisas do campo e do seu usufruto.
Tudo isto, porque a poesia suaviza o nosso dia-a-dia, alimenta os nossos sonhos, o nosso imaginário, faz-nos rir, faz-nos chorar, transporta-nos para tempos e lugares passados e futuros. A poesia coloca-nos em contacto directo com as nossas emoções. E em Cesário Verde encontram-se integrados os três aspectos do ser humano: o sentimento, o pensamento e a acção.
Dividido, por sua própria opção, entre a actividade literária e as suas ocupações no comércio e na lavoura, Cesário soube tirar proveito de todas elas numa interacção e enriquecimento contínuos tão bem retratados pelo seu amigo Silva Pinto no prefácio que escreveu para o único livro que o autor de «O Sentimento Dum Ocidental» deixou para publicação: «... quando Cesário julgava em raros momentos sacrificar a Arte aos seus gostos de lavrador e de homem prático, sucedia que as coisas do campo, da vida prática, assimilavam a fecundante seiva artística do poeta; e, então, dos frutos alevantavam-se aromas que disputavam foros de poesia aos aromas de flores».
E ainda bem que foi essa a opção de Cesário Verde, falecido bastante jovem, mas que deixou para a posteridade algumas das mais belas odes da poesia portuguesa, sabendo-se como a leitura de poesia é um dos mais poderosos e eficazes antídotos naturais contra a solidão e de relaxamento salutar face aos múltiplos problemas que afligem o quotidiano da maioria das pessoas.

ACONSELHAMENTO

Pergunta (Francisco Viegas, Montijo) – Estou naturalmente de acordo com as considerações da Drª Alcione, expressas na sua última crónica dedicada à realização humana, sobre a autêntica sofreguidão com que um número cada vez maior de indivíduos, não só em Portugal mas quase à escala planetária, querem ser famosas a qualquer custo, mesmo que para isso tenham de pisar outras pessoas mais qualificadas, candidatando-se a lugares e a profissões para as quais não têm qualquer espécie de aptidão. Mas se na época actual são raramente valorizados ou bem pagos os cidadãos anónimos, ainda que competentes, como será possível incentivar, sobretudo os jovens, a escolherem actividades pouco ou nada mediáticas em que se possam realizar pessoalmente, sentido-se ao mesmo tempo úteis à colectividade?
Alcione Scarpin – Ao contrário do que se possa imaginar há felizmente muitos jovens a optarem por escolhas coerentes e diversificadas no extenso leque das actividades humanas, pelo que fazendo eco do que é normalmente veiculado por certos sectores de opinião, constitui um erro levar a pensar-se que o mediatismo sem conteúdo pode conduzir a algum patamar superior. Pois o mediatismo, seja em que campo for, só é justificável, se estiver ligado ao trabalho, à realização e à competência.
Desde logo, é igualmente errado desvirtuar-se a acção pedagógica e educativa de pais e professores de que se aprende Matemática sem se fazerem milhares de exercícios e cálculos mentais ou de se que pode falar de Literatura ou escrever correctamente sem se ter lido e escrito bastante.
Tudo isto acontece, enquanto alguma Comunicação Social, esquecendo este pormenor fundamental, faz simultaneamente um enorme alarido ao comentar os fracos resultados obtidos nos exames nacionais em Matemática ou ainda em Literatura, Linguística e História, não só Universal mas também do próprio País, o que ainda é bem mais grave.

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A REALIZAÇÂO HUMANA

Jorge Gabriel, o apresentador do programa televisivo «Praça da Alegria» revelou, em entrevista ao matutino «24 Horas», que pretendia tirar o curso de treinador de futebol, pois ambicionava ter o sucesso de José Mourinho.
Mas à semelhança do que acontece com Jorge Gabriel, deparamo-nos quase todos os dias com os desejos e anseios de pessoas (mais ou menos conhecidas), mesmo sem qualquer preparação específica ou talento visível, de quererem ser escritores ou escritoras, actores ou actrizes, pintores ou pintoras, jornalistas, treinadores ou jogadores de futebol, desde que assim consigam ser famosos ou famosas e ganhem montões de dinheiro.
De uma forma bastante didáctica, o jornal «A Capital» publicou uma excelente reportagem através da qual podemos compreender as razões do sucesso e a árdua caminhada percorrida pelo actual treinador do Chelsea, sintetizadas por Manuel Sérgio, seu antigo professor na Faculdade de Motricidade Humana, ao afirmar: «Einstein dizia que um génio é 5 por cento de inspiração e 95 por cento de transpiração. E José Mourinho para além de ser um fenómeno de genialidade, ou seja de inspiração, trabalha e prepara-se muito».
É um facto que ninguém deve ser impedido de sonhar; de tentar novos rumos na sua própria vida, mas há que desmistificar-se que o sucesso não se alcança por um mero «passe de mágica».
A maioria dos êxitos nas diferentes realizações humanas é feita de variáveis determinantes: a existência de um talento potencial, a própria personalidade, a formação, a capacidade de estudo e trabalho, a disciplina, a perseverança e um meio social favorável.
Conta-se que um espectador, no final de uma excelente actuação de um famoso pianista aproximou-se dele e exclamou: «Eu daria a minha vida para tocar assim». Ao que o pianista respondeu: «Meu caro senhor, foi isso que eu fiz!».
Quantas vezes assistimos ao esvaziar instantâneo de «celebridades» feitas à pressa em canais televisivos, nas mais diversas áreas do espectáculo e da comunicação, tendo o fenómeno mediático de fabricação virtual de falsos talentos o efeito perverso de incentivar à mediocridade e a fantasias de carácter doentio.
Este estado de coisas leva as pessoas a afastarem-se de actividades úteis, que só na aparência são menos importantes para a realização individual e colectiva, e que de uma forma positiva as ligariam à realidade e não a um verdadeiro estado de megalomania auto-destrutiva.

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O MEDO DA SOLIDÃO

A solidão é diferente de estar-se só. Estar só é tão salutar e necessário como a nossa vivência social. A solidão é não ter-se com quem contar ou «desabafar», mesmo quando se está rodeado de gente. A solidão é um estado de espírito. Pessoas aparentemente bem sucedidas nos aspectos profissional e sentimental e com uma vida social intensa podem sofrer de solidão.
As pessoas solitárias sentem-se quase umas estranhas na sociedade. É um sofrimento psicológico, e embora nem se apercebendo, quase pedem licença para existir. É como se o Mundo não lhes pertencesse ou elas próprias não pertencessem a este Mundo. Muitas vezes afastam as pessoas que delas se aproximam e o mais insignificante obstáculo assume para elas contornos e dimensões gigantescas.
Nas suas vidas aparentemente vazias habitam fantasmas de toda a ordem. Extremamente introvertidas remoem anos a fio uma mágoa, uma advertência, uma experiência falhada ou apenas menos conseguida. Dão à infância e ao passado um determinismo exarcebado. Há uma passividade aparente diante dos factos e uma revolta surda interior que as corrói.
Vitor Frankl, psicanalista austríaco, via o Mundo como um «puzzle» onde cada um de nós é uma peça imprescindível para completar um todo. Já Charles Chaplin, o genial criador do imortal Charlot, dizia que neste Mundo há espaço para todos.
Ao sentir-se solitário ou solitária e confuso ou confusa nesta vida há, então, que procurar no seu universo interno o verdadeiro propósito para a sua existência. Pois neste autêntico «puzzle» que é o nosso Planeta, e apesar das semelhanças aparentes entre algumas das «peças» que o habitam, as pessoas nunca são totalmente iguais.
Há sempre algo que nos faz únicos e diferentes.

ACONSELHAMENTO

Pergunta (Mónica Freitas, Sintra) - Como na sua última crónica a Drª Alcione abordava o tema da solidão, eu, que embora ainda jovem, me preocupo bastante com o problema das pessoas idosas, muitas das quais vivem sozinhas e longe de tudo e de todos, tantas vezes em aldeias quase despovoadas ou em últimos andares de prédios altissimos nas grandes cidades, ou mais baixos mas sem elevador, gostaria de saber como solucionar da melhor forma esta situação angustiante dos tempos modernos?
Alcione Scarpin - Infelizmente nos tempos actuais, como a Mónica muito bem escreve, inúmeros idosos, mas também jovens com graves deficiências, vivem sozinhos ou muito desamparados, ao contrário do que se passava há algumas décadas atrás, quando a estrutura familiar era mais sólida e por isso mesmo mais protectora e fraterna para com esses cidadãos.
Mas, porém, nem tudo ficou tão mau como parece à primeira vista, pois o incremento das vias de conunicação, sobretudo com o advento dos telemóveis. tornou mais fácil manter os idosos em contacto não só como os seus familiares e amigos, mas também com os diversos serviços de atendimento, desde bombeiros às urgências de hospitais, passando por juntas de freguesia e algumas instituições religiosas que já prestam esse tipo de apoio.
É evidente que a situação ainda é dramática em muitos casos, pelo que urge tomar medidas corajosas e criativas, tanto por parte dos organismos oficiais como dos famliares mais próximos e dos amigos mais solidários, para que a velhice não seja um fardo pesado e um drama marcado por uma terrível solidão e abandono, mas antes uma fase da nossa existência que nos traga muita alegria pelo facto de continuarmos vivos, quando se sabe que o futuro nos reserva uma longevidade cada vez maior.

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O SONO E OS SONHOS

Do livro «Génesis» da Bíblia retirámos o relato de um dos sonhos do Faraó: «Estava de pé junto da margem de um rio. E do rio saíram sete vacas belas e gordas, que se puseram a pastar a erva; depois de estas saírem do rio outras sete vacas, enfezadas e magras, pararam junto às primeiras, na margem do rio; e as vacas enfezadas e magras devoraram as sete vacas belas e gordas».
José, filho da terra de Canaã que fora vendido pelos seus irmãos como escravo, aos egípcios, foi chamado para desvendar este sonho, e explicou que as sete vacas gordas representavam sete anos de fartura e abundância quando deveriam ter-se acumulado provisões (alimentos) para os sete anos de fome que viriam a seguir, representados pelas sete vacas enfezadas e magras.
Por este exemplo retirado da Bíblia, constata-se assim que, desde os tempos mais remotos, o ser humano tem um verdadeiro fascínio pela vida onírica, procurando, de uma forma ou de outra, interpretar as imagens dos sonhos.
Todos nós sonhamos, mas nem sempre nos lembramos dos nossos sonhos.
Sisgmund Freud, o pai da Psicanálise, publicou em 1889 «A Interpretação dos Sonhos». E na introdução a essa obra afirma:
«Proponho-me mostrar neste livro que existe uma técnica psicológica que permite interpretar os sonhos: se aplicar essa técnica, o sonho aparece como uma produção psíquica que tem um significado e que se insere perfeitamente na sequência das actividades mentais da vigília».
Para Freud, as fontes dos sonhos podem dividir-se em quatro categorias:
Excitação sensorial externa (objectiva);
Excitação sensorial interna (subjectiva);
Estímulos somáticos internos (orgânicos);
Fonte de inspiração puramente psíquica.
Num processo psicoterapêutico, podem aparecer em sonhos situações que a pessoa procura evitar na vigília e que, quando esclarecidas, podem ajudá-la a avançar no seu desenvolvimento.
Para ser analisado, um sonho não deve ser visto no seu todo. Procuramos detectar situações, lugares ou pessoas que consideramos relevantes e pedimos ao nosso interlocutor que faça uma associação de ideias com cada uma das partes.
A partir dessa associação, e levando-se em conta a história da pessoa em questão, chegamos a interpretações verdadeiramente surpreendentes.
Do ponto de vista psicológico todos os sonhos são «bons», mesmo aqueles cujos conteúdos pareçam incoerentes ou mesmo assustadores.
Enquanto o sono é reparador para o organismo, o sonho exerce um papel reparador para a vida psíquica, favorece as funções mentais, ajudando a decifrar enigmas e mesmo a encontrar soluções para as mais diferentes questões.
Pelo que em muitos aspectos do foro psíquico, e tal como escreveu o poeta António Gedeão, o sonho comanda a vida!...

ACONSELHAMENTO

Pergunta (Alice Martins, Barreiro) - Sonhei que estava numa sala rodeada de crianças que brincavam, quando surgiu um senhor alto e forte, com muito mau aspecto. As crianças deixaram então de brincar e puseram-se a um canto muito assustadas.
Eu, que no sonho, me pareceu estar a desempenhar as funções de professora ou educadora de infância, que na vida real não sou, fiquei a olhar para aquela cena, mas não tive nenhuma intervenção, para perguntar-lhe por exemplo quem ele era ou o que estava ali a fazer, reagindo como se não fosse nada comigo e aí acordei.
Qual será o significado deste sonho?
Alcione Scarpin - As crianças do seu sonho a meu ver representam o seu lado mais «infantil», alegre e descontraído. Quanto ao senhor alto e forte, com mau aspecto, pode significar a censura e repressão que eventualmente fará à sua alegria de viver, tornando-a numa pessoa cheia de medo e desconfiada.
Entretanto, a Alice afirma não ter consciência dessa relação psicológica para consigo mesma e por isso talvez não faça nada, ou muito pouco, para mudar essa atitude negativa perante a vida que, no futuro, deverá passar a enfrentar com outra determinação, de modo a vencer a provável auto-censura que a limita no seu contacto com os outros.

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O MISTÉRIO DA INTUIÇÃO

Em contacto com estudantes estagiários e jovens recém-formados tenho vindo a constatar a rigidez e o formalismo dos currículos escolares e a própria dureza dos métodos de ensino, apesar de todo o avanço tecnológico.
A intuição, definida como «percepção clara e pronta da realidade» tem sido de certa maneira desvalorizada. O homem é racional; a mulher é intuitiva e fica-se por aí...
Felizmente, muitos estudiosos, entre cientistas e pensadores, não compartilham de um tal desprezo e tratam a «amiga» Intuição com o respeito que ela merece.
O cientista português António Damásio, há vários anos a trabalhar nos EUA, refere-se à intuição, em «O Erro de Descartes», o primeiro livro que publicou, como sendo «um misterioso mecanismo, através do qual chegamos à solução de um problema, sem o raciocínio».
Também o psicólogo americano Jerome Seymour Bruner, no seu livro «O Processo da Educação», dá particular atenção ao desenvolvimento do pensamento intuitivo nas escolas, ao afirmar:«O caloroso louvor prodigalizado pelos cientistas aos seus colegas que merecem o rótulo de intuitivos, constitui a maior evidência de que a intuição é um bem valioso na Ciência e um bem que deveríamos empenhar-nos em fortalecer nos nossos alunos».
A intuição está subjacente a um simples palpite, como por exemplo «já esperava encontrá-lo aqui»; um pressentimento, tal como «esse discurso soa-me a falso...»; às grandes criações literárias, teatrais, cinematográficas, pictóricas, musicais, inventos e até mesmo nos «passes mágicos» de um futebolista.
A intuição pode emergir de um processo de busca ou ser a «chave» para uma investigação genial.
Para Jerome Bruner «o pensamento intuitivo gera hipóteses rapidamente, atinge combinações de ideias antes que se conheça o seu valor. Parece que os indivíduos que possuem uma extensa familiaridade com determinado assunto chegam com mais frequência intuitivamente a uma decisão ou à solução do problema».
Familiaridade implica, contudo, mais do que conhecimento académico. Para haver familiaridade é necessário existir paixão, ou seja uma dedicação extrema, uma entrega total a um objecto de estudo, a uma causa, a uma arte ou a uma investigação.

ACONSELHAMENTO

Pergunta (Rossana, Sintra) - Como será que a intuição, ao alertar-nos, pode ajudar a precaver-nos de certas situações? E como é que funciona esta espécie de sexto sentido? Como se manifesta nas nossas vidas?
Alcione Scarpin - A intuição é um sentido de grande utilidade para o ser humano, embora ainda esteja infelizmente muito pouco explorada. Estando muito ligada à observação e à reflexão pode proteger-nos de perigos e de momentos desagradáveis, podendo, por outro lado, favorecer-nos em situações que poderemos definir de prazenteiras.
Neste caso, a intuição pode ser entendida como a percepção de uma determinada realidade sem passar pelos demais sentidos (pelo menos de forma consciente), funcionando mais como um pressentimento.


Pergunta (António Custódio, Porto) - Com muita frequência eu identifico a pessoa que está ao telefone sem que previamente veja o número de quem me está ligando. Poder-se-á designar esta situação como uma forma específica de intuição?
Alcione Scarpin - Numa situação com estas características podemos falar de intuição sintonizada com o sentimento e o pensamento pois a pessoa que telefonou, antes de o fazer, lembrou-se do António. Digamos, então, que você captou este sentir/pensar através da intuição. Mas este, designado «sexto-sentido», ainda tão pouco conhecido e explorado, bem poderá vir a ser um grande aliado no futuro próximo da humanidade.
Existem, no entanto, campos de investigação direccionados para o estudo destes «fenómenos» também genericamente designados de telepáticos, cuja importância não será de todo menosprezar.

Pergunta (Nuno Domingues, Massamá) - Na linha do que escreveu na sua crónica sobre os «passes mágicos» dos futebolistas gostaria que a drª Alcione desenvolvesse melhor essa ideia, pois é um tema que, desde sempre, despertou o meu interesse, não sendo raro ler depoimentos de alguns jogadores de futebol, ao afirmarem que tiveram um momento de inspiração na marcação de um golo. Será essa inspiração, intuição?
Alcione Scarpin - Quando jogadores de futebol, como por exemplo Maniche, Nuno Gomes, Deco, Figo, Cristiano Ronaldo, Rui Costa ou Pauleta, para falar apenas em nomes mais famosos, afirmam em entrevistas, logo depois dos jogos, que, em dado momento, tiveram a inspiração de que iriam marcar golo, e, em vez de passarem a bola a um companheiro melhor colocado, remataram com êxito à baliza, por vezes de posições incríveis, podemos designar esse pressentimento de intuição.
Isso também acontece no âmbito de outras modalidades desportivas (atletismo, ciclismo, automobilismo, andebol, hóquei, etc), importando que além da preparação física e técnica todo o atleta tenha uma bos preparação psicológica. Se no momento do jogo, ou da prova, o atleta estiver num estado emocional favorável, a apreensão da realidade vai ser instantânea, sem passr de forma consciente, ou deliberada, pelos outros sentidos, e aqui a intuição é o sexto sentido a funcionar de maneira clara e inequívoca, da qual o expoente máximo é também chamado de genialidade.


Pergunta (António Melo, Évora) - Há quem diga que a política é a arte da sedução. Mas será que aliada à sedução não coexiste também uma grande dose de intuição?
Alcione Scarpin - Sem pretender fazer qualquer espécie de campanha política ou clubística por alguém, até porque este espaço não está para isso vocacionado, vou servir-me de uma reflexão que li recentemente no matutino «A Capital», em que o Dr. António Dias da Cunha, que para além de empresário e dirigente desportivo, na qualidade de preidente do Sporting, é também um soarista assumido, ao ser questionado se o êxito do antigo Presidente da República se devia à sua capacidade intuitiva, fez o seguinte comentário: «Se ter intuição é ser capaz de dar o salto por cima de uma série de etapas e chegar a conclusões sem ter percorrido as fases todas de um raciocínio tradicional, então isso é intuição. Aliás, todos os criadores têm essa capacidade, e o Dr. Soares é um criador». Intuitivo, acrescentaremos nós.

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O DIAGNÓSTICO DA ANSIEDADE

A ansiedade está na base de inúmeros distúrbios de ordem psicológica. Li algures que uma professora do Ensino Primário ao receber em cada ano uma nova turma pedia aos alunos para que lhe mostrassem as mãos. As crianças que roíam as unhas passavam a receber dela uma particular atenção, pois sabia tratar-se de crianças ansiosas.
A ansiedade em certa medida é perfeitamente normal e mesmo necessária. Entretanto, pessoas altamente ansiosas sofrem por antecipação acontecimentos e fatalidades que (felizmente) quase nunca chegam a acontecer, provocando mesmo assim um desgaste físico e mental.
No estudante a ansiedade pode bloquear os processos cognitivos, dificultando a aprendizagem ou um bom rendimento em provas e exames, mesmo quando a matéria está toda estudada. O estudante ansioso não consegue reflectir sobre as questões apresentadas, não detectando claramente o que lhe é solicitado. E, por consequência, não é capaz de visualizar no seu próprio campo mental a resposta adequada ao problema proposto.
A ansiedade pode também gerar sintomas orgânicos, de ordem psicossomática: diarreias, vómitos, enxaquecas, insónias, etc...
Os médicos de família geralmente são os primeiros, e às vezes os únicos, a ouvirem as queixas dos seus pacientes ansiosos. Alguns atacam logo o sintoma visível sem uma única pergunta que pudesse esclarecer melhor o diagnóstico. Outros, mais atentos, e porque não dizer mais humanos, em simultâneo com o tratamento por eles prescrito para aliviar a dor, chegam mesmo a indicar um apoio psicoterapeutico a fim de que o doente aprenda a lidar com a sua própria ansiedade e a enfrentar as dificuldades que se lhe deparam com maior confiança e serenidade.
A propósito desta relação médico-paciente, o neurocirurgião João Lobo Antunes, no seu livro «Um Modo de Ser», reflecte da seguinte maneira a sua forma pessoal de viver a Medicina: «Quando passamos da certeza de diagnósticos objectivos, sustentados por dados laboratoriais seguros para o indivíduo doente, entramos num universo caótico em que se entrechocam a esperança, o medo, o sofrimento, a alegria, a dor, a morte, enfim miríades de factores, cuja presença como para certas partículas atómicas, só é perceptível pelas marcas que deixam, ou pela forma como se repelem ou atraem. É aqui que a preparação humanística do médico mais ajuda a entender o ser doente, por moldar o seu rigor científico com uma sensibilidade afinada para perceber os matizes da vida e as melodias dos sentimentos».
Falou a razão feita conhecimento. Para quê mais palavras!...

ACONSELHAMENTO

Pergunta (Filomena Santos, Lisboa) - Como mãe, e professora, há uma questão que desde sempre me tem preocupado, ou seja a da relação que poderá existir entre a ansiedade e os maus resultados dos alunos, sobretudo nos exames finais. E de como, e se será possível, combater o peso dessa ansiedade?
Alcione Scarpin: Os maus resultados nos exames escolares, como também acontece com outros tipos de exames (de condução, na admissão para empregos, etc) estão quase sempre relacionados com uma deficiente preparação dos alunos para os mesmos. No entanto, a ansiedade também pode interferir e influenciar, pela negativa, esses resultados finais, apesar de uma boa preparação e aplicação dos alunos ao longo do ano escolar, estando relacionada com uma expectativa exagerada sobre as capacidades dos examinandos, geralmente alimentada no meio familiar e até pelos próprios professores.
Para combater essa ansiedade, o primeiro passo é conhecê-la, identificá-la dentro do leque das emoções e por fim descobrir como ela se manifesta, de forma a poder diagnosticá-la e tratá-la correctamente.


Pergunta (António Felisberto, Porto) – No decorrer do «Euro/2004» li com bastante frequência alusões a efeitos de ansiedade nos jogadores que, em muitos casos, terão limitado o seu rendimento desportivo.

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